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Samwise
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Postby Samwise » 31 Mar 2005 10:11

O Fernando saiu à rua e espirrou três vezes. Estava uma tarde de Verão no bom sentido do termo e a claridade unia as pedras da calçada num manto uniforme de luz. A temperatura abrasadora cegava os sentidos a qualquer aventureiro menos prevenido que tentasse uma deslocação àquela hora do dia.

Enquanto tirava um par de óculos escuros do bolso, Fernando descansou a vista no azul-negro do alcatrão da estrada. Ondas invisíveis emanavam das capotas do veículos estacionados ao longo do passeio, turvando quaisquer olhares desafiantes. Nem uma brisa se fazia ouvir.
Óculos assentes no nariz e o mundo filtrado a tons de castanho, o rapaz dirigiu-se ao café do costume, aquele que ficava no largo de S. Sebastião, em frente à fonte. Gostava de passar lá algumas tardes, a ler um livro ou um jornal e a beber café. Por vezes recostava-se e ficava a ver a pessoas a passarem na rua e a escutar conversas alheias que dançavam no ar à sua volta.
Estava entusiasmado com o novo livro que comprara na véspera. Iria começar a lê-lo quando chegasse ao café. De tal forma estava entusiasmado que fez o caminho a pé sem dar por ele.

Arranjou um lugar na esplanada por baixo de um guarda-sol meio enferrujado.
- Olhe... por favor... era uma bica e um copo de água.
A visão dos repuchos de água à sua frente faziam-no lembrar-se de sonhos por realizar.

Pegou no livro, virou-o ao contrário e iniciou a leitura pelo resumo na contra-capa.


Sam :bbde:
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acrisalves
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Re: 2º Conto BBDE

Postby acrisalves » 02 Apr 2005 15:26

Samwise wrote: O Fernando saiu à rua e espirrou três vezes. Estava uma tarde de Verão no bom sentido do termo e a claridade unia as pedras da calçada num manto uniforme de luz. A temperatura abrasadora cegava os sentidos a qualquer aventureiro menos prevenido que tentasse uma deslocação àquela hora do dia.

Enquanto tirava um par de óculos escuros do bolso, Fernando descansou a vista no azul-negro do alcatrão da estrada. Ondas invisíveis emanavam das capotas do veículos estacionados ao longo do passeio, turvando quaisquer olhares desafiantes. Nem uma brisa se fazia ouvir.
Óculos assentes no nariz e o mundo filtrado a tons de castanho, o rapaz dirigiu-se ao café do costume, aquele que ficava no largo de S. Sebastião, em frente à fonte. Gostava de passar lá algumas tardes, a ler um livro ou um jornal e a beber café. Por vezes recostava-se e ficava a ver a pessoas a passarem na rua e a escutar conversas alheias que dançavam no ar à sua volta.
Estava entusiasmado com o novo livro que comprara na véspera. Iria começar a lê-lo quando chegasse ao café. De tal forma estava entusiasmado que fez o caminho a pé sem dar por ele.

Arranjou um lugar na esplanada por baixo de um guarda-sol meio enferrujado.
- Olhe... por favor... era uma bica e um copo de água.
A visão dos repuchos de água à sua frente faziam-no lembrar-se de sonhos por realizar.

Pegou no livro, virou-o ao contrário e iniciou a leitura pelo resumo na contra-capa.

Tirou os óculos, olhou em volta e abriu o livro. Encosta-se na cadeira, cruza as pernas, e inicia a leitura pausadamente. Imerso nas palavras, nem repara no estranho que se senta na sua mesa. Alto de ombros largos, cabelo escuro e olhos verdes, o estranho de fato escuro olha Fernando com um meio sorriso de quem goza tudo e todos. Tosse para ver se é notado, mas sem grande sucesso. Entretanto, Fernando lembra-se do café que já deve ter esfriado, baixa o livro e repara na presença à sua frente... a sua expressão muda subitamente, e de sobrolho enrugado encara o estranho, pousando o livro. Ao mesmo tempo, o empregado pousa uma cerveja na sua mesa e deixa a conta, que é recebida pelo desconhecido.

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Re: 2º Conto BBDE

Postby Cerridwen » 02 Apr 2005 17:47

Este leva as mãos aos bolsos e tira algum dinheiro que, de seguida, entrega ao empregado.
Enquanto o estranho está ocupado, Fernando tenta decidir aquilo que irá dizer, ao mesmo tempo que a recupera do choque daquela visão aterrorizadora. Pensava ele há uns anos atrás, se tinha livrado daquela triste figura que era o seu irmão. Já não bastava a vergonha que tinha passado, bem como tantos problemas com a polícia judiciária e com tribunais. Tinha agora de encarar aquele que difamara uma família que, sempre servira de exemplo para a sociedade.

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Re: 2º Conto BBDE

Postby Thanatos » 02 Apr 2005 23:06

Cerridwen wrote: Tinha agora de encarar aquele que difamara uma família que, sempre servira de exemplo para a sociedade.

- Boa tarde, mano! - exclamou o irmão com a habitual petulância. - Então andas por aqui armado em intelectual? - e com um ligeiro gesto indicou o livro que Fernando segurava nas mãos.
- O que queres, Manuel?
- "O que queres, Manuel?" É assim que falas ao teu maninho mais velho que te adora? - esboçou um sorriso trocista. - Mas estou a ver que hoje estás num dos teus dias. Por isso vou direito ao assunto. Preciso de dinheiro. Muito. E tu vais emprestar-mo. Boa?
- Sabes bem que não te posso emprestar dinheiro, Manuel. Por que insistes? - Fernando levou a bica tremulamente à boca. O murro do irmão na mesa da esplanada assustou-o ao ponto de se salpicar de café na roupa.
- Não brinques comigo, maninho! - acenou um dedo em frente à cara do Fernando. - Não brinques! Estou enrascado. E conto contigo.
Não importa como, não importa quando, não importa onde, a culpa será sempre do T!

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Re: 2º Conto BBDE

Postby Drops » 04 Apr 2005 19:28

Thanatos wrote: - Não brinques comigo, maninho! - acenou um dedo em frente à cara do Fernando. - Não brinques! Estou enrascado. E conto contigo.

O Fernando levanta-se dizendo:
- Bem, já que não me livro de ti, vamos falar para outro lado. Aqui há gente a mais.
Ainda com o seu sorriso trocista Manuel concorda, afinal também não tinha muito interesse em escândalos... além disso, irritar o irmão nunca fora a melhor maneira de obter dele o que queria.

Embora Fernando achasse que o parque era belo demais para o que se iria seguir, era o único lugar fresco de que se conseguia lembrar onde não iam ser vistos juntos.
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Re: 2º Conto BBDE

Postby Riobaldo » 04 Apr 2005 23:30

Chegados ao parque, Manuel começou a contar as histórias mirabolantes que aconteceram durante os anos que passou na prisão. Os "amigos" que fez e os, ainda mais, "inimigos". Coisas que ao Fernando interessavam muito pouco:
- De quanto precisas?
- Epá... preciso de uns mil para limpar uma dívida, mano. Se não me ajudares eles f*dem-me a vida!
- Que seja a última vez que vens ter comigo!
- Ok mano! Não te chateio mais.
- Podes ter a certeza que não. Amanhã passa lá por casa e tens os mil euros.
Manuel soltou uma gargalhada nervosa e, ao mesmo tempo, medrosa:
- Mano... são mil contos...
Fernando estacou. Hesitou por breves segundos. Decidiu-se:
- Esquece. Tenho dois filhos e uma mulher. Não tenho mil contos para ti Manuel.
- Mas mano... eles matam-me.
- Faziam-te um favor. Adeus.
- Fernando! Fernando!
Mas Fernando já lá ia:
- Adeus!
E desapareceu de vista.
Manuel sentou-se num banco de jardim. Que faria agora da sua vida? Como se livraria da dívida de mil contos que tinha? Aqueles traficantes eram malta da "pesada". Não brincavam em serviço. Tinha que arranjar o dinheiro de qualquer forma. Mas porque é que se metera na merda da droga! Toda a gente o avisara que depois de lá estar não se sai. É um amor para a vida toda. Por mais que nos zanguemos com esse amor, estamos sempre dispostos a perdoá-lo, a voltar. Mas se fosse só isso, estava tudo bem. O problema é que é um amor muito caro. E quando se deixa de trabalhar perde-se tudo. Dívidas. Só se ganham dívidas e mais dívidas. Que fazer?
Tirou o telemóvel do bolso. Tinha-o comprado na "candonga". Era um desses muito modernos, na loja custam os olhos da cara. Observou-o. Terá que o vender provavelmente.
Distraidamente começa a percorrer as mensagens escritas. O nome Joca aparece muitas vezes. E muitas delas são ameaças. Apagou todas as mensagens. Guardou o telemóvel de novo no bolso. Mas, no preciso momento em que o empurrava para o fundo do bolso, este começa a tocar e vibrar. Puxa-o atabalhoadamente. Número privado. Atender ou não atender? Atender:
- Sim?
- Sou eu Manuel, o Fernando. Tenho os mil contos de que precisas. Moro na Rua...
Estava safo!
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Re: 2º Conto BBDE

Postby Gokuu » 07 Apr 2005 10:04

Embora tivesse arranjado maneira de saldar a dívida, graças ao seu irmãozinho querido, tudo aquilo lhe pareceu muito estranho... Ora, a mesma pessoa que minutos antes lhe dissera que não tinha direito para lhe emprestar telefona-lhe do nada a dizer para passar por casa dele?
Por casa dele?
Desde que saiu de casa dos pais, à 15 anos, Fernando nunca o tinha convidado para sua casa, inclusivamente só agora soube onde morava... Por que raio lhe disse precisamente agora para ir lá?
- Algo de estranho se passa...

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Re: 2º Conto BBDE

Postby Archie » 08 Apr 2005 22:26

***

Será que Manuel ia aceitar a proposta dele? Afinal de contas ele precisava, e bem, daquele dinheiro. Havia um certo risco, era certo. Mas a vida é feita de quê? De riscos. E riscos era algo com que o irmão se sentia à vontade certamente. Se a experiência corresse bem era a melhor coisa que lhe podia ter acontecido até hoje. Se corresse mal...bem, melhor nem pensar nisso. Pegou no telemóvel.
- Boa tarde. Margarida? Passe-me ao Dr. Wolfgang.
- Um momento Dr. Fernando.
Wolfie ia gostar da boa nova.
- Ferrnando? Não é tua folga?
- Wolfie, acho que encontrei alguém. Homem, cerca de um metro e setenta e cinco, oitenta kilogramas. Achas que serve?
- Das ist wunderbar! Mas ele concorrda?
- O problema é esse. Ele ainda não sabe. Achas que podemos nos encontrar os três no laboratório?
- Podemos confiarr nele?
- É o meu irmão.
- Brüder?! Não sabia que tinhas irrmão!
As vezes preferia não ter...
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Re: 2º Conto BBDE

Postby isabelucha » 09 Apr 2005 21:10

Enquanto Fernando e o Doutor trocavam cordiais palavras de circunstância, Manuel apreciava o homem que se lhes havia juntado, uma verdadeira personificação da imagem de alemão que sempre tivera na sua cabeça: alto, forte, com uns olhos azuis que brilhavam como punhais... O cabelo, agora claro, deixava entrever uma careca luzidia e branca. Uma branquidão que parecia irradiar de todo o seu corpo, como um floco de neve. Floco de neve gigante, seria uma boa alcunha para...
- Senhorr Manuél?
Manuel reparou que se havia perdido em pensamentos e olhava fixamente para o alemão, pelo que naturalmente este havia estranhado esta admiração muda.
- Peço desculpa, estava a tentar ler na sua mente a proposta que tem para me fazer!
Wolfgang sorriu.
- Sigam-me. Temos que terr uma pequena converrsa.

***

Olhando à volta, ela não sabe onde está. Sente-se presa, e ligeiramente atordoada... Apenas vê uma luz branca intensa apontada para ela, o que a impede de vislumbrar o que quer que seja.
Está vestida de preto e sente um forte odor a incenso... Ao tentar levantar-se cai ao chão; as mãos estão livres, mas os pés estão presos à cadeira onde se encontra sentada.
- Bonito. Arranjo sempre maneira de me meter em confusões...
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Re: 2º Conto BBDE

Postby Pedro Farinha » 13 Apr 2005 13:15

Aos poucos os seus sentidos aguçam-se. Percebe a presença de alguns vultos por detrás daquela luz insistente que a fere e a cega. Trocam palavras em voz baixa que ela esforça-se por perceber mas que não consegue. Não é português nem inglês nem francês que são as línguas que conhece, mas o som gutural e os estalidos húmidos que dão com a língua não a enganam – aqueles homens falam alemão.

De repente a escuridão. Passos que se afastam e vozes que se extinguem. Por duas vezes se prepara para falar e por duas vezes as palavras se imobilizam na sua boca. Quando dá por ela está só e depois daquela luz tão penetrante, sente uma enorme dificuldade em ver mais que contornos. Percebe no entanto que está num local húmido e com paredes de pedra. Paredes antigas daquelas que parecem ter uma história para contar.

Aos poucos recupera a sua habitual presença de espirito e consegue-se sentar de novo. Com as mãos percorre o corpo como que para ver se não tem nada partido. Sente o vestido curto a terminar nas suas pernas compridas e um arrepio percorre-lhe a espinha. O seu vestido preto decotado em nada se coaduna com a temperatura local, nem com a humidade que parece escorrer por aquelas paredes graníticas.

Pensa em gritar mas percebe que se a deixaram sem mordaça é porque não há o mínimo risco de ser ouvida seja por quem for. As mãos percorrem agora os tornozelos tentando desfazer os nós apertados que lhe magoam a carne e é então que com um ranger se abre uma pesada porta de carvalho.

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Re: 2º Conto BBDE

Postby Samwise » 15 Apr 2005 10:25

A rapariga conhecia de fio a pavio todas as sensações resultantes de uma bebedeira valente. Tinha passado por muitas ao longo da sua vida. O estranho era que nenhuma lhe tinha dado um abanão para melhor. O enjoo que sentia amparava-se numa ampliação generalizada dos sentidos. Parecia que o mundo inteiro lhe queria entrar para dentro da cabeça.
Ia olhando para a porta enquanto tentava desatar os nós que a prendiam. Apetecia-lhe usar os dentes para os desfazer.
Susteve o fôlego, imobilizada de medo. Um par de olhos luzidios e rasteiros observava-a através da escuridão. Aproximavam-se impulsionados numa passada rápida.
Um cachorro, com não mais de dois ou três meses correu para ela e, em pose de brincadeira, começou a lamber-lhe as pernas, a ronronar carinhosamente e puxar-lhe os dedos das mãos.
A rapariga soltou uma gargalhada nervosa. Mas...aquilo não era um cão!!! Era um lobo!!!
Olhou novamente para a porta. Para lá dela, na penumbra envolvente, conseguia vislumbrar mais olhares, pendurados no nada da escuridão.

---

'Deixem-me lá ver se entendi bem,' começou Manuel, já a pensar em vectores de negócio. 'Vocês querem que eu sirva de cobaia para uma experiência científica e estão dispostos a pagar por isso?'
'Ja.' Do outro lado Wolfgang pousou as mãos em cima da mesa e intercalou os dedos uns nos outros, esperando uma reposta.
Manuel olhou outra vez para o calhamaço de papel que tinha à frente. No título aparecia a palavra "Contrato" em tons carregados. O restante texto apresentava-se em letra pequena, estendendo-se por mais de trinta páginas. Parecia-lhe um daqueles regulamentos das companhias de seguros que mentem no corpo de texto normal e desmentem em notas de rodapé. Coisas de advogado. Não estava com paciência para ler aquilo.
'Onde está mencionado o dinheiro?'
'Na alínea 23, página 4. Manuel, eu disse-te que te arranjava a massa, confia em mim.'
'Pois... mas emprestar é uma coisa... pagarem-me para eu levar uma injecção de hormonas de lobo é outra...! Envolve um certo risco. Não sei se 5000 euros é suficiente...'
'Dinhêrro! Semprre o dinhêrro. Que raio de paich este!' Wolfgang levantou-se e começou a andar de um lado para o outro, com as mão atrás das costas.
'Ó maninho... acalma aí o nazi, tá bem? Estou a pensar no assunto, preciso de concentração!'
'Leva o tempo que quiseres. Eu vou com o Dr. até lá fora. Já passamos por cá. E esquece lá isso de receberes mais!' Levantou-se e saíram.
Manuel coçou o queixo, pensativo. Não tinha gostado da parte em que mencionaram choques eléctricos... Na sua memória via o Jack Nicholson a levar uma lobotomia, num filme que vira há pouco tempo. E se perdesse a memória? E se a borracha saltasse a meio da coisa e mordesse a língua?
Precisava do dinheiro e essa era a questão.

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Re: 2º Conto BBDE

Postby acrisalves » 15 Apr 2005 23:15

O lobinho rosna baixo e arreganha os dentes, virado para a escuridão. O bater do coração acelera face à reacção do animal, e os olhos arregalados da rapariga prescutam a escuridão em busca de movimento. Por entre a fresta da porta entreaberta pelo lobinho, vinha agora um som estranho e a anterior luz ofuscante torna a encadeá-la.

_____

Ainda relutante, Manuel assina... precisa demasiado do guito para se fazer esquisito.. e hormonas de lobo não podiam ser assim tão más... hormonas temos todos. Os choques eléctricos... bem, se não conseguisse a recompensa iria ser bem pior. Termina o rabisco e espera, encostado na cadeira e tremendo as pernas num irritante tique.
O doutor alemão entra na sala e olha para a folha pousada no cimo da mesa com o sobrolho carregado. Coloca os óculos, verifica a assinatura e sai da sala silenciosamente, mas com uns modos pesados que transmitem aborrecimento.
Por outra porta entra uma rapariga alta loura e de olhos azuis água. Manuel sorri - afinal nem tudo era assim tão desagradável, mas a rapariga, de bata, permanece impassível e faz um gesto para ele a seguir. Suspira e levanta-se, encantado com a guia. Percorrem vários corredores brancos, impecavelmente imaculados - limpo, mas ao mesmo tempo a impessoalidade era arrepiante. As poucas janelas davam para um espaço no centro do edifício de chão preto, sem árvores. O tecto alto dava-lhe uma estranha sensação de pequenez.
Absorvido pelos seus pensamentos, só reparou que a rapariga tinha parado porque esta estava voltada para si, abrindo uma porta e de olhos fixos como uma estatua de gelo - inexpressivos.
À sua frente surge uma sala - branca com uma luz forte. Tudo era branco. Manuel segue a rapariga que lhe estende uma bata, juntamente com uma toca e uns chinelos.

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Re: 2º Conto BBDE

Postby Cerridwen » 16 Apr 2005 15:40

É com alguma repugnância que ele pega nas peças, ainda a pensar na situação em que se encontra. Agora que olha para aquela sala irreal, que mais parece vinda de um pesadelo, cheia de objectos esquisitos que nunca viu, e que lhe parecem excessivamente sinistros, começa a ser sacudido por pequenos e incontroláveis arrepios de medo.
Nas paredes opostas à porta por onde entrou, vêem-se algumas jaulas com animais, grande parte deles pequenos mamíferos, mas também algumas aves, bem como outros animais que não conhece ou não consegue distinguir. Lembram-lhe o seu ex-amigo Snoopy, um cão de raça Labrador que o acompanhara durante a sua juventude, confortando-o naqueles momentos em que ninguém o compreendia. O único amigo que teve e que trocou pela droga. Droga essa que nunca o confortou e que o obrigou a deixar a escola, a roubar e até a matar. Afinal o que lhe estava a acontecer era fruto do caos que semeara e das vidas que ceifara.

- Faça o favor de colocar as peças que lhe entreguei. – diz rispidamente a rapariga que, agora se encontra virada para ele com ar de impaciência.

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Re: 2º Conto BBDE

Postby Thanatos » 19 Apr 2005 20:06

Manuel despe-se sem pudor, atirando a roupa para um canto. Veste a bata, coloca a touca no cabelo e calça os chinelos. A loura pega-lhe num braço e impacientemente leva-o até meio da sala onde o obriga a deitar-se numa marquesa. Afasta-se até perto dum armário de inox de onde retira um conjunto de frascos, uma seringa e uma agulha esterilizada.

Manuel tenta pensar no que irá fazer após pagar o que deve. Talvez comer uma refeição decente... talvez ir ao cinema... quem sabe podia até telefonar àquela garina, a da faculdade. Durante uns dias tinham ido a um ciclo de cinema francês. Os filmes eram uma merda mas a gaja até que era boa. E usava uns decotes provocantes.

E pensando na carne branca dos seios da rapariga mal sentiu a seringa entrar na veia do braço. Um calor agradável estendeu-se pelo corpo fora. As pálpebras pesaram-lhe. Ao longe ainda ouviu a voz gutural do nazi:

- Ja mein Herr. Er ist ein junger Man, aber er ist wirklich gut - o resto da conversa soçobrou nas dobras do pesado sono que se abateu sobre ele.
Não importa como, não importa quando, não importa onde, a culpa será sempre do T!

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