4º Conto BBdE

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Samwise
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4º Conto BBdE

Postby Samwise » 15 May 2007 11:09

<!--fonto:Arial Black--><span style="font-family:Arial Black"><!--/fonto--><!--sizeo:4-->[size=125]<!--/sizeo-->**** ATENÇÃO: Colocar aqui apenas as participações. Para discutir assuntos há outro tópico. ****<!--sizec-->[/color]<!--/sizec--><!--fontc-->[/color]<!--/fontc-->

Ana, acho que podes começar...

Sam
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anavicenteferreira
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Re: 4º Conto BBdE

Postby anavicenteferreira » 15 May 2007 22:46

Susana acordou lentamente. Os olhos abriram-se e fecharam-se novamente. Lutou por mantê-los abertos mas as pálpebras pesavam-lhe como chumbo.

Quando conseguiu finalmente olhar em volta, mesmo com a visão distorcida, apercebeu-se de que não sabia onde estava. Não reconhecia as paredes de pedra grosseira, nem a janela aberta que não conseguia distinguir claramente por entre o brilho branco do sol, nem o tecto caiado cruzado por traves de madeira escura.

Tentou levantar-se, mas o seu corpo estava inerte; continuava a dormir apesar de a sua mente já estar meio acordada. Tentou chamar; a boca não lhe obedecia, a sua lingua era uma coisa morta, inchada, dorida.

Perguntou-se o que lhe teria acontecido. Nunca se sentira assim.
Ana

Pedro Farinha
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Re: 4º Conto BBdE

Postby Pedro Farinha » 22 May 2007 21:29

Há quanto tempo estaria ali. Sandra não sabia. Os braços amarrados atrás das costas e a posição rígida na cadeira tinham-lhe trazido formigueiros a percorrerem todo o corpo primeiro, depois dores fortes e agora nada. Era como se o corpo se tivesse desligado.

A fraca luz da sala onde se encontrava e o vidro que tinha em frente dos olhos para uma outra sala inundada por uma luz intensa proveniente do exterior traziam-lhe uma sensação absurda - como se tivesse sido abduzida.

De repente, num canto da sala distinguiu um outro corpo que se levantava. A contra-luz não lhe tinham permitido ver que estava ali mais alguém. Agora bem desperta, Sandra deu mais uma sacudidela na cadeira e tentou cuspir a mordaça que a tornava muda como o grito que emitiu - estava ali alguém, podia ser a salvação.

Do outro lado do espelho, no entanto, o vulto feminino cambaleava e a custos tentou agarrar-se à parede antes dos joelhos se dobrarem e aterrar no chão.

O vidro espelhado devolveu-lhe o desespero da sua cara, com dois rastos de lágrimas bem vincados na sua cara suja. Há quanto tempo estaria ali. Sandra não sabia.

InocencioVIII
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Re: 4º Conto BBdE

Postby InocencioVIII » 23 May 2007 10:35

A outra pessoa que estava na sala com ela, levantou-se da cadeira desde onde a observava e aproximou-se do seu corpo indefeso.

- “Não vale a pena tentar afrouxar as tuas amarras”, diz o desconhecido. “Não vais conseguir escapar.”

Desesperada, Sandra tentava descobrir quem era o seu captor, de onde o conhecia. Mas não conseguia lembrar-se sequer como tinha ido parar a essa sala. As lágrimas continuavam a escorrer pelo rosto, deixando bem visível o seu desespero.

- “Sei que não percebes por que razão estás aqui, a tua linhagem nunca foi particularmente beneficiada no que se refere ao uso do cérebro. Apenas deixei que acordasses porque me pareceu que era justo que soubesses por que razão vais morrer. Como os teus pais morreram antes de ti, também pela minha mão.”

O homem era alto e bem-parecido, com um curioso magnetismo animal que fazia que Sandra se sentisse atraída por esta estranha figura, apesar do medo que lhe paralisava os membros. Os movimentos felinos deste homem e o seu olhar penetrante faziam que alguma excitação se juntasse ao medo. Teria feito alguma coisa com ele?

- “Alguma vez ouviste falar de Alessandro Cagliostro? Pois. É o mal desta geração, um magote de incultos e ignorantes, é o que vocês são. Os teus pais também não sabiam quem era eu. Morreram na ignorância, coitados. Eu era um alquimista, nasci em 1743 – controlei Reis e Papas… até que por culpa da vossa interferência fui condenado pela Inquisição. EU! Que tinha o poder para dominar o mundo! A tua raça conseguiu manipular aquele idiota do Pius Sextus a condenar-me por heresia e bruxaria. Para comutar a minha pena de morte, tive que ceder alguns dos meus segredos alquímicos a Pius Septimus, incluindo o segredo da imortalidade. Tive que sujeitar-me a prestar serviço a um imortal que eu criei. Consegues imaginar tormento maior do que esse?”
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Lord Wimsey
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Re: 4º Conto BBdE

Postby Lord Wimsey » 28 May 2007 22:18

Para mais informações por favor ler A bengala de estoque de Dickson Carr, o imbecil concedeu-me à laia de previlégio a honra de umas paginecas onde o grande interesse era um truque para matar sem gastar balas.

Mas afinal não. O narrador equivocara-se e o emaranhado da trama que malogradamente tentava narrar confundiu-o.
Isto era um teste ao poder lógico do leitor.
Como dito, a segunda pessoa na sala não mais do que a refracção luminosa numa superfíce espelhada de essoutro não luminoso corpo, em urgente necessidade de intervenção exterior para se ver. Para que se veja, a si mesma.

Recordemos, então. Sandra há sabe Zeus quanto tempo naquel encafuado lugar, um espelho, e uma Sandra de lágrimas no rosto.
Estranho? Não, dirá o genial leitor, é natural já que está fechada numa casa que não conhece sem saber como nem porquê, continuará o mesmo genial leitor. Errado, isso de armar em génio é no que dá. Chora porque as glândulas lacrimais de Sandra nunca como as ordinárias foram. Do tamanho de duas favas, rosas, quase fulvas, prometem escorrência superficial (e mesmo subterrânea, diga-o a nespereira que regada é todas as mnhãs num choro ardente e descomprometido) sem aviso prévio a qualquer momento. Foi o que aconteceu.
Ainda assim, a situação é alarmante.
Há dias fora de casa e as bombas de NaCl^-1 (o composto químico anulador das lágrimas que em peso líquido ultrapassam os 300 gramas) em cima do lavatório. Inútil.
Talvez seja melhor chamar por alguém, diz que os raptores costumam ser gente sensível, de boas famílias e banco reservado n a igreja da sé.

- Ó da casa!

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Cerridwen
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Re: 4º Conto BBdE

Postby Cerridwen » 31 May 2007 15:59

- Está aí alguém?

Experimentou assobiar mas tinha pouco jeito para o gesto e estava demasiado cansada para que o som fosse mais do que um ligeiro ruído.

Sem resposta, à medida que começavam a sentir o peso do tempo, os músculos do corpo de Sandra começavam a ficar tensos. O sentimento de aprisionamento repugnava-a e ao mesmo tempo, revoltava-a. Prezava a sua liberdade mais do que a sua própria vida.

Após alguns minutos de raciocínio chegou à conclusão óbvia, nada havia a fazer, apenas esperar. O seu sexto sentido dizia-lhe que a resposta para a situação em que se encontrava estava próxima e ela há muito que confiava nesse sentido que, por inúmeras vezes, havia-se mostrado correcto. Agora ainda mais dado que, a sua memória parecia traí-la. As únicas memórias que tinha pareciam-lhe longínquas, não tinha recordações dos dois dias anteriores e não tinha recordações precisas relativamente a dias anteriores.

À memória vinha-lhe apenas a rotina do dia-a-dia. O trabalho, a família, os amigos do costume. Nada de anormal.

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Samwise
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Re: 4º Conto BBdE

Postby Samwise » 01 Jun 2007 17:44

Apercebeu-se de que a rapariga não dera pela sua presença e demorou-se a contemplar-lhe a figura esguia, o rosto suado, as marcas das cordas nos locais onde tentara forçar uma fuga. E o corpo desidratado - por certo devido aos soporíferos administrados e à imobilidade de várias horas.

E que bela se mostrava a seus olhos.

Conteve-se para não avançar de imediato. Eram raras as alturas em que podia observá-las assim tão de perto, sem berros, sem histerismos, sem medos, sem tentativas de pontapés na virilha - nenhuma até então havia cooperado com os seus intentos. Não pretendia estragar a magia do momento. E teria, mais tarde, todo o tempo do mundo para usufruir daquele corpo - é deixar passar totalmente o efeito do fármaco, pensou.

----

"É como lhe digo, senhor Matias... temos de esperar 48 horas até a podermos declarar como desaparecida - até podermos emitir um mandato. Mas olhe, vá pelo que digo: normalmente, quando desaparece uma mulher casada, vinte anos já feitos, não se trata de um caso de rapto... são elas que fogem ao matrimónio, com outros tipos, se é que me entende - e não estou aqui a dizer que foi este o caso. Quero apenas alertá-lo. Às vezes o choque é grande... "

- Polícias da merda!

As palavras do guarda repetiam-se vezes sem conta na cabeça de António. Confundiam-se na sua já confusa confusão neuronal. Que fazer? Onde procurar primeiro? Por onde começar? Susana... minha Susana... sei que alguém te levou…

Aclarou as ideias, pegou num papel, e passou em revista os factos do dia anterior...



Sam
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Re: 4º Conto BBdE

Postby Aignes » 01 Jun 2007 23:30

Registou uma última vez aquele novo exemplar e fechou a porta cuidadosamente. Haveria tempo para si, com calma e paciência. Sentia-se inquieto, qual cientista à espera de experimentar uma nova hipótese em cobaias por estrear. Avançou pelo corredor verde, de paredes nuas e chão silencioso, enquanto estalava a língua, excitado, adorava quando recebiam novos carregamentos. Tinha ainda de esperar pelas formalidades, era certo...observações e estudos e muitos gráficos comparativos que já lhe tinham sido explicados tantas vezes, que lhe explicavam de cada vez que as recebiam. Mas não memorizava, não atribuía qualquer importância a todos esses processos...desde que no final as tivesse para si, para o seu fim último, para si. Desistiu então do barulho irritante que fazia e abriu a segunda porta daquele corredor verde.

------
A língua de Susana estava finalmente menos dormente, o corpo mais móvel, a cabeça mais clara, ainda que uma dor se começasse a alastrar pelas têmporas acima, como hera numa árvore carcomida. Todo o corpo sentia-o coberto por um torpor viscoso que a prendia, fragmentos dispersos de memórias a ricochetearem na sua mente dorida...confusão, amarras fortes nos seus membros, vozes sussurradas e imagens desfocadas. De repente, apercebeu-se que não tinha os óculos postos. Sentiu-se mais tranquila, a visão desfocada não era pela luz intensa do quarto nem por quaisquer substâncias desconhecidas que lhe tivessem administradas. Estava a observar, a custo, a escassa mobília do local onde se encontrava quando a porta branca se abriu.
«The force that through the green fuse drives the flower
Drives my green age; that blasts the roots of trees
Is my destroyer.
And I am dumb to tell the crooked rose
My youth is bent by the same wintry fever.»

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Re: 4º Conto BBdE

Postby Archie » 04 Jun 2007 17:01

Contrastando com a claridade da sala, um pequeno vulto preto encontrava-se à sua frente. Era um homem pequeno, não teria mais do que um metro e sessenta. Seria um homem? Sim, era certamente. A roupa justa, latex provavelmente, não deixava enganar.

- Acordada? - disse a pequena figura, com a voz camuflada por uma espécie de máscara que lhe ocultava a cara - Cheguei mesmo na hora certa.

Susana, ainda desorientada com tudo o que tinha acontecido não sabia o que dizer. Tentou gesticular mas não saia qualquer som.

- Calma, ainda estás meio dormente. Eu ajudo-te.

O pequeno homem aproximou-se de Susana. Segurou-lhe numa mão e puxou-a para si. Susana não compreendia se haveria de confiar naquele homem ou não. Tinha medo, mas não tinha força.

*click*
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Re: 4º Conto BBdE

Postby Gokuu » 10 Jun 2007 12:05

No momento em que ouviu o barulho, o homem vestido de latex largou-a, e Susana viu-o dirigir-se na direcção da porta.

Sem os óculos, não conseguia distinguir muito bem a sua silhueta, mas pareceu-lhe que mexia na maçaneta.

- Suas bestas, mas vocês não vêem que eu estou aqui dentro?! Destranquem já esta merda! Cambada de imbecis. - O homem vociferou numa voz que Susana nunca atribuiria a um corpo tão franzininho.

*click*

A porta estava, de novo destrancada, e o homem voltou a dirigir-se para Susana.Levantou-a da cadeira e, apoiando-a nele, dirigiu-se para a porta.

- Ah, isto é capaz de te dar jeito. - disse, ao passar por uma mesa, e pegando nos óculos que se encontravam lá pousados.

A custo, Susana colocou os óculos, e olhou para a cara do seu raptor:

- Mas... Eu conheço-te!

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Venom
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Re: 4º Conto BBdE

Postby Venom » 13 Jun 2007 22:24

- Tu és o ...

Antes de poder acabar a frase, o homem voltou a berrar.

- Abram já a porta seus incompetentes! O responsável por este "incidente" será severamente castigado. Não pensem que sairão impunes desta pequena brincadeira. Tu! Manda chamar a enfermeira de serviço ao meu gabinete.

- Sim senhor!

Num outro gabinete discutia-se prazos e testes.

- Não há maneira de apressar os testes?

- Sabes como é o pessoal de laboratório, gente minuciosa. Dá-lhes o tempo que pedem e verás que vem tudo em ordem. Peço te que tenhas um pouco de paciência.

- Hmph. Já pensaste em meter umas plantas aqui? Dar alguma vida a isto, parece tão mórbido. E que tal um candeeiro de tecto? Esta miniatura não ilumina o suficiente.

- Está bom assim. Queres mais um pouco de Whisky?

- Não obrigado. Ainda estou de serviço.
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Re: 4º Conto BBdE

Postby anavicenteferreira » 14 Jun 2007 13:50

Matias estava sentado no muro do jardim, a olhar para a casa e a pensar. Não acreditava que Susana tivesse partido de livre vontade e não era só o orgulho a dizer-lhe isso, era a lógica também. Tinha desaparecido uma pequena mala com coisas dela, mas eram as coisas erradas.

O casaco Chanel aos quadrados que a sua mãe oferecera a Susana tinha sido levado e ela detestava-o. Do mesmo modo, tinha sido deixados para trás o lenço antigo de seda que pertencera à tia-avó dela e um anel de prata que passava de geração em geração na família dela há mais de um século. Não eram coisas que ela usasse no dia-a-dia, mas eram coisas que ela nunca teria deixado ficar se tivesse partido de vontade próprio.

No entanto, a verdade é que a casa não fora arrombada e a maior parte das coisas postas na mala faziam sentido, mas só para quem não conhecesse Susana tão bem como ele. Começava a acreditar que havia alguém conhecido implicado no rapto da sua mulher. Não só alguém que tivesse andado a vigiar a casa e a vizinhança, mas alguém que eles tivessem realmente recebido no sue lar, alguém a quem talvez tivessem até feito algumas confidências.

A suspeita dava-lhe a volta ao estômago, mas não o largava.
Ana

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Re: 4º Conto BBdE

Postby Pedro Farinha » 16 Jun 2007 23:06

Na sala branca dois homens olhavam atentamente os monitores. Um deles, o mais velho, passava a mão pela cara, apreensivo - mas o que é que ele está a fazer ?

O mais novo, de óculos, levantou-se - devo ter exagerado na droga, está outra vez com a mania que é Alessandro Cagliostro.

Na verdade o monitor mostrava o pequeno homem, coberto de latex negro, a gesticular frenéticamente frente à rapariga. Dos altifalantes saía o som roufenho característico que não conseguia disfarçar a excitação no tom de voz - Jesus Cristo, Maomé, Buda, Gandhi todos eles acabaram por ser controlados por mim, uns antes da morte, outros apenas depois...

- Passou-se de vez - disse o mais velho - e ainda temos quatro experiências para terminar.

- Podemos sempre usar o outro ...

InocencioVIII
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Re: 4º Conto BBdE

Postby InocencioVIII » 21 Jun 2007 16:54

O monólogo do homem continuava:

- Eu sei que não me consegues resistir! Eu devo ser uma fonte de feromonas. Mas tem sido sempre assim, desde o início dos tempos. Ninguém me resiste. Vocês não me compreendem, mas eu vivo fora do tempo. Eu vejo os ciclos ocorrerem e repetirem, eu manipulo os eventos. Cristo? Quem é que achas que tratou das coisas da crucifixão? Kennedy? Ioannes XX? Fui tudo eu! Tu, ele, mesmo aqueles que nos observam, a tua família, os teus amigos... são todos apenas engrenagens que giram e pensam que tem iniciativa própria. Mas no fundo, estão a reciclar a história, a viver e reviver e reencenar os mesmos dramas antigos cheios de sangue, magia, monstros, sexo e sacrifícios. Há forças sinistras por baixo da superfície da vossa tecnologia avançada e conflitos ideológicos. É claro que tu me conheces... tem sido assim nos últimos três mil anos. A tua resposta tem sido sempre a mesma, vaca imunda! Estou farto!

A rapariga estava cada vez mais confusa, sem saber o que respondia enquanto a verborreia do indivíduo de látex prosseguia.

- Mas hoje, hoje o ciclo acaba! Finalmente! Tal como Abraão de Ur - vou tentar sair desta maré infinita de repetições, desta história eterna onde tu, eles, todos estão enleados neste emaranhado e eu sou forçado a olhar. Mas isto acaba agora! É por isso que desta vez não me vou livrar de ti. Ou se calhar devia? Não sei. Estou confuso... ajuda-me...

O homem ajoelhou-se e começou a chorar.

- Porque não me respondes? Exijo que me respeites! Ou não compreendes a magnitude do meu poder? Eu manipulo tudo! Até o narrador! O leitor! O Omnipotente! O Dickson Carr! Todos vocês! A Humanidade inteira está a ser manipulada por mim... como achas que surgiu a Bengala de Estoque? No entanto, não consigo fugir deste ciclo maligno! Nem os santos sabem quem sou eu realmente…

Na sala branca, os dois homens continuavam a olhar os monitores. O mais novo suspirou.

- Tem razão, Professor. Com este não vale a pena. Arruinei-o de vez. Peço desculpa.
- Talvez não, Ilidio - responde o outro - talvez não...
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