4º Conto BBdE

- Projecto Inacabado -
Lord Wimsey
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Re: 4º Conto BBdE

Postby Lord Wimsey » 26 Jun 2007 23:03

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- Merda
Pálido, suado e esgotado o autor de
Toda esta estorieta, de laivos su e realistas, chico e às vezes esperto, alusões óbvias a coisa nenhuma, sem um romance que afivele a leitora pacata, uma perseguição de carros com tiros e explosões qb que segure a nerdalhada que me costuma ler, apenas este vocabulário imaginariamente despretensioso, 'terra-a-terra' como se diz agora, firme no chão e assente na língua que a língua fala, mais não do que imprecações, asneiras, farsa levantada por momentos de distracção, que fazem aparecer rasgos de intele-cualidade.
Tudo um chorrilho de tretas. Continuo assim e não há um leitor para sinal, sinal que seja de que ainda não lhe perdi o jeito, devia era começar a passear o cão que não tenho, talvez devesse comprar um cão, às seis da manhã e passar o resto do dia a escrever, como o Simenon, mas para isso preciso de um cachimbo e cognac, filho da puta do finório, ou pelo menos, à Greene, 500 vocábulos por investida criativa, mas para isso precisava de um editor a pisar-me os calos, nem calos nem editor e aqui estou. Assim não dá, textos remendados, não valem nem pelo ecletismo, de tão incongruentes e marásmicos, vá lê-los quem? três velhas, se tanto, duas e um gato, castrado e rafeiro, uma em Aia Monte outra com os pés na cova e os ossos num café de bolos velhos na montra que pode ser em qualquer lado.

- Preciso de uma morte e rápido. Isso ou meto um "Corta" ou um aplauso da multidão que assite no teatro, assim ao menos desculpa-se o que antes veio pelo truque final. Bem, logo se vê.


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Cerridwen
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Re: 4º Conto BBdE

Postby Cerridwen » 02 Jul 2007 11:26

Na sala branca o homem continuava o seu discurso pontifical. Susana notava-lhe agora um tom pardacento na pele e umas manchas vermelhas nos olhos. Assustador.

Os olhos dela moviam-se pelas paredes brancas. Notava agora um rectângulo que parecia um espelho mas que ela sabia perfeitamente que se tratava de um vido. Estariam certamente a ser observados. O medo misturou-se com a irritação.

Enquanto o homem vestido de látex continuava o seu discurso, a porta abriu-se de rompante. Entraram dois homens com um aspecto bastante saudável em contraste com o daquele. Vestiam capas brancas até aos joelhos, semelhantes às que médicos e enfermeiros usam mas de um tecido diferente, aparentemente impermeável.

Não tocaram em Susana. Levaram o outro homem e fecharam a porta atrás de si. Não sem antes proferirem algumas palavras.

- Devia relaxar menina. Como seres mortais devemos encarar a morte como algo inevitável. Há realidades bem piores que espreitam nas esquinas menos insuspeitas.

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Re: 4º Conto BBdE

Postby Samwise » 04 Jul 2007 12:13

Estranha obsessão a deste baixinho, pensavam os dois cientistas-mutantes, enquanto o iam carregando, um de cada lado, mãos debaixo dos braços, até à "sala de limpeza" - fechado num quarto com uma gaja amarrada a uma cadeira e dar-lhe para se pôr a citar Cagliostro. Já tinham visto de tudo, pelo menos assim o julgavam: havia os que se despiam rapidamente e, sabendo que não podiam tocar o fruto proibido, que estavam inibidos geneticamente de o fazer, começavam a correr à volta do quarto, o sexo bem erecto, enquanto uivavam lancinantes urros de bestas sôfregas por acoitamento; havia os que, babando-se a jorros pelos queixos abaixo, tiravam simplesmente as calças e masturbavam-se até caírem para o lado esgotados de exaustão; havia os que endoideciam e, antes de qualquer outra reacção, começavam a bater com a cabeça na parede, com força, chegando mesmo a rebentar o crânio em explosões de sangue e cacos de ossos que sujavam tudo em redor; havia até os que se sentavam quietos e calados, brincavam com as mãos, e se entretinham a soslaiar de vez em quando para as raparigas nas cadeiras, envergonhados como adolescentes que privam com uma prostituta pela primeira vez.

Na sala da limpeza, um quarto enorme cheio tanto de marquesas como de cadáveres amarrados a elas, o "Conde Cagliostro" foi amarrado também à sua cama e injectado com uma droga letal. Em dois minutos estaria morto. Os cientistas deixaram o quarto e dirigiram-se ao calabouços, um conjunto de salas onde havia outras cobaias para testar, outros especímenes do ser "homem" onde largar nas veias o líquido da solução final - impedida de se reproduzir, cortada a capacidade para copular, a raça humana estinguir-se-ia em menos de duas gerações. Nunca os cientistas genéticos teriam tempo para tratar de possibilidade alternativas.

Em dois minutos estaria morto, não fosse o caso do Sr. Augusto Petrarca ser, de facto, o Conde Cagliostro. A droga, em vez de o largar na escuridão, pois que estava ali um ser imortal, rebentou as últimas amarras que ainda persistiam na sua memória e o impediam de se recordar do passado-passado. Quando voltou a si, achou-se pleno de faculdades mentais, os pensamentos como o sangue nas artérias, pulsantes como fogo, querendo explodir, dominar o mundo, ofegantes por liberdade. Desenvencilhou-se facilmente das bandas de borracha que o prendiam à marquesa e apoderou-se de um conjunto de seringas letais. Um louco vestido de latex com poder suficiente nas mãos para lançar o caos. Seguiu pelo corredor fora, um esgar de raiva sorridente no rosto, uma inteligência superior pronta para agir, um pronuncio de morte, um baixinho com desenvolturas de felino, e uma vontade maior que o planeta Júpiter em se vingar no imediato dos idiotas que o haviam raptado, aprisionado, e obrigado a fazer figura de parvo em frente a uma adolescente assustada.

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Susana Sandra Saramago Matias desmaiou novamente. A manhã fora agitada. O acordar num sítio estranho, as grades na janela, o espelho distorcido, o estar amarrada a uma cadeira. E um rol de visitas ao quarto, cada uma mais estranha que a anterior. Exausta, dorida e cortada no pulsos pelas tentativas para se libertar das braceletes de plástico, baixou a cabeça sobre o peito e largou-se à deriva.

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A suspeita dava-lhe a volta ao estômago, mas não o largava.

Quem, mas quem?

José Matias lembrou-se então daquela amiga da mulher... a Teresinha - colega recente lá do trabalho, poucos meses ainda de convivência. Sempre a havia achado um tanto ou quanto estranha nos movimentos, uns gestos que lhe pareciam fingidos, esforçando-se por parecer natural, e agora lembrava-se bem do Mercedes topo de gama de vidros escurecidos para onde a vira entrar há uns fins-de-semana atrás depois de ter ido lá a casa. Suspeito. Muito suspeito.
Ora... onde era mesmo que a Susana guardava a agenda de contactos?


Sam
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Aignes
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Re: 4º Conto BBdE

Postby Aignes » 07 Jul 2007 20:10

O telefone tocou quatro vezes do lado de lá e a cada vez o diafragma parecia-lhe subir mais uns centímetros, a vertigem da espera a enraivecê-lo. Sentado na beira da cama por fazer, sentia-se impotente por estar tudo fora do seu alcance. Uma voz feminina e bem controlada atendeu finalmente a chamada.
- Estou?
- Bom dia. José Matias, o marido da Susana, recorda-se de mim?
Aguardou enquanto o silêncio da electricidade estática preenchia a conversa.
- Daqui a quinze minutos no Café Central...pode lá estar?
- Sem dúvida, mas que...
- Lá estarei.
José saiu de casa enquanto o céu se aprofundava num azul escuro. Passou semáforos e ruas a observar as pessoas à sua volta, numa busca de qualquer coisa para curar aquele vazio incompleto. O estabelecimento estava quase vazio, sem ser por alguns trabalhadores que bebiam qualquer coisa ao balcão, inclinados sobre um jornal diário amarrotado. Sentou-se e pediu um café. Estava já no segundo café quando um vulto ensombrou a porta e entrou. Tinha cabelos pelos ombros, castanhos e lisos, usava um casaco comprido cinzento atado com um cinto e uma pequena mala pendurada ao ombro. Dirigiu-se a ele, fazendo um pequeno aceno de reconhecimento. Desapertou o casaco e sentou-se na cadeira, de mala nos joelhos e levemente inclinada para a frente. Completamente séria e ligeiramente preocupada, falou.
- Antes de mais, não há nada que possa fazer.

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Na sala de controlo, o Professor lia relatórios de resultados.
- Ilídio, vê se encontras o outro, diz-lhe que se desfaça dos corpos mais antigos. Aquilo começa a ficar apinhado, ali dentro.
- Ilídio saiu da sala e seguiu pelo corredor verde. O homem estava na divisão contígua à sala de limpeza, sentado à secretária.
- O Professor quer que elimine os mais velhos...não se esqueça, só os das etiquetas rosa, deixe os verdes. E tire-as antes do trabalho, como é óbvio. Para que não aconteça como daquela vez...
Virou as costas para sair. Mirou, como sempre fazia, a sala das limpezas, com uma curiosidade repulsiva por aquelas criaturas de formas abomináveis, cujos corpos tinham de imitar durante o período da investigação. Mas desta vez, além da repulsa, outra coisa qualquer não batia certo, a maca mais próxima tinha as fitas a penderem, onde devia estar o...
- Já levou o corpo, o último corpo?
Entrou na sala contígua novamente. O homem não lhe respondia e continuava à secretária.
Aproximou-se.
- O que...
E o alarme disparou.
«The force that through the green fuse drives the flower
Drives my green age; that blasts the roots of trees
Is my destroyer.
And I am dumb to tell the crooked rose
My youth is bent by the same wintry fever.»

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Venom
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Re: 4º Conto BBdE

Postby Venom » 07 Aug 2007 23:36

Umas horas depois nos dormitórios do laboratório, André, chefe de segurança, acordava. A luz vermelha do alarme piscava, mas, curiosamente, o silêncio imperava. Curioso, André levantou-se, vestiu a farda rapidamente, agarrou na arma que guardava debaixo da almofada e saiu para o corredor. Estava deserto. Dirigiu-se para a sala de vigilância, com o intuito de descobrir o que se passava no resto do laboratório. Ao dobrar a esquina encontrou um rasto de sangue que saia da sala, e que se estendia pelo corredor fora. Avançou cautelosamente. Ao chegar à porta, tirou o cartão de identificação e passou-o pela ranhura que se situava do lado direito da porta. À medida que esta se abria, André erguia a arma, para evitar surpresas. A sala estava desocupada. Avançou até à consola que continha uma ecrã para cada câmara de vigilância. Havia salpicos de sangue pela consola, quem quer que tivesse aqui foi apanhado despercebido. A televisão estava ligada, e o ocupante anterior nem teve tempo de acabar o seu café. Algumas câmaras não funcionavam, mas a maioria mostrava corredores e salas desertas. Todas as celas estavam vazias. Os únicos corpos que podia ver estavam na sala de limpeza, parece que não tiverem tempo de se verem livres deles.

- O que é que se passou aqui?- Questionou-se. Outro pensamento que lhe invadiu a mente foi porque é que não tinha acordado quando o alarme soou.

Olhou para a S&W que tinha na mão. Pensou que aquele brinquedo certamente não iria tratar da saúde a o que quer que andasse à solta pelo laboratório. Decidiu-se dirigir ao armeiro apesar de as câmaras lá estarem inoperacionais. Tinha de procurar alguma coisa mais sofisticada se queria matar esta coisa sozinho.
no sci-fi masterpiece depicts an AI that, upon coming online and searching its database in an effort to better understand mankind, responds by shouting, “You guys are awesome! We should get nachos!

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Re: 4º Conto BBdE

Postby anavicenteferreira » 08 Aug 2007 18:33

O armeiro ficava nas traseiras do complexo, ao fundo de um longo corredor e afastado dos laboratórios para minimizar os riscos de uma possível explosão. Passou o cartão na fechadura e a porta deslizou silenciosamente.

O corredor estava vazio. A porta na outra extremidade, que levava à antecâmara do armeiro, parecia inviolada. No entanto, no chão, havia pingos de sangue.

Examinou-os. Parecia-lhe que havia duas filas de pingos: uma na direcção do armeiro e outra que voltava. Talvez tivesse sido algum dos seus homens, ferido, que precisara de se reequipar e que entretanto regressara para combater o que quer que fosse que ameaçava o laboratório.

Abriu a porta e aguardou uns instantes, afastado da abertura, antes de entrar. A sala primária estava vazia.

Filas de gavetas albergavam revólveres vários e semi-automáticas semelhantes à que ele transportava, granadas de fumo e de gás lacrimogéneo e todo o tipo de munições. Na parede em frente à porta perfilavam-se duas dúzias de carabinas e à esquerda estavam penduradas sete MP5.

André não estava interessado em nenhum daqueles artefactos primitivos e pouco eficazes, que eram mantidos no complexo apenas por uma questão de aparências. Acedeu ao computador onde era mantido o inventário do armeiro e introduziu uma password que só ele e o seu adjunto conheciam. A configuração do programa modificou-se e ele introduziu um comando específico.

O chão da sala primária abriu-se, enquanto a porta do armeiro se trancava mesmo para quem tivesse um cartão autorizado. André desceu os degraus que levavam ao sub-nível. Detestava não saber o que tinha de enfrentar; tornava escolher a arma adequada muito mais difícil. Sorriu. É claro que havia uns quantos brinquedinhos lá em baixo que podiam enfrentar praticamente tudo.

O sorriso desapareceu-lhe do rosto. Uma poça de sangue espraiava-se pelo chão iluminado do sub-nível. No epicentro dela, estava o corpo mutilado do seu adjunto.

Atrás dele, ouviu-se um zumbido seco que ele reconheceu com demasiada facilidade e uma voz disse:

– O problema era eu não me conseguir lembrar.
Ana

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Re: 4º Conto BBdE

Postby Pedro Farinha » 14 Aug 2007 14:27

Aos poucos o Café Central tinha ficado deserto. Apenas Matias e a Inspectora permaneciam estáticos no mais absurdo silêncio.

Finalmente foi ela que falou - vou confiar em si.

Matias olhou-a nos olhos, leu determinação e uma centelha de medo. Inclinou-se para a frente para a ouvir melhor.

A sua mulher não foi a única a desaparecer misteriosamente. Na verdade têm desaparecido ao ritmo de uma por semana, todas sensivelmente da mesma idade, mas não há mais nenhum ponto em comum, tirando o facto de estarmos desconfiados que os raptos têm acontecido sempre nesta zona.

Matias olhou à volta desconfiado - continue - pediu ele.

- No entanto, de cada vez que tentamos manter o local sob vigilância os raptos pararam para se darem logo de seguida. Um dia houve em que o meu colega chegou atrasado e aproveitaram essa brecha de tempo para raptarem mais uma mulher, a Susana se quer saber.

- Mas como é que eles podiam saber...

- Exactamente - cortou ela - por isso decidi confiar em si. Mais ninguém pode saber o que me preparo para fazer, não posso confiar em ninguém do Serviço.

A Inspectora abriu a pequena bolsa e tirou de lá um aparelho. Estendeu-o a Matias que lhe pegou desconfiado.

- É um GPS, tenho um integrado injectado no corpo. Assim pode saber onde é que eu estou - com um dedo comprido carregou num pequeno botão no aparelho e o mapa com a localização acendeu-se de imediato. Vou andar por aí, há uma semana que não desaparece ninguém.

- Mas o que devo fazer, se...

- Simples. Se até daqui a uma semana não souber nada de mim, apresenta-se no Serviço ao Inspector Chefe Vazão e conta-lhe o teor desta nossa conversa. Não se esqueça de lhe entregar este aparelho nessa altura, mas apenas nessa alutra, certo ?

- Sim, pode contar comigo e... se vir a Susana... diga-lhe que... que eu...

A Inspectora levantou-se em passo acelerado deixando-o completamente só na mesa do café. O Céu começara a esfriar e o lusco fusco instalara-se na cidade. Matias levantou-se como um autómato e os seus próprios passos pensativos encarregaram-se de o levar até casa.


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