Censura? Sim, censura.

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Re: Censura? Sim, censura.

Postby Samwise » 25 Feb 2009 14:09

No nosso passado recente encontrei isto:

http://jugular.blogs.sapo.pt/745272.html

http://revistadeimprensa.forumpsp.net/doss...20livreiro%20es

http://www.iapmei.pt/iapmei-leg-03.php?lei=3476

Ainda não li o Decreto-lei, mas lamento ter-me escapado semelhante objecto aquando da discussão sobre a pornografia.

Cerr, para responder ao teu post sobre o direito da autoridade, está aqui o enquadramento legal onde se suportou a acção (suponho).

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Re: Censura? Sim, censura.

Postby Pedro Farinha » 25 Feb 2009 15:07

2. Para o efeito do disposto neste diploma, são considerados pornográficos ou obscenos os objectos e meios referidos no número antecedente que contenham palavras, descrições ou imagens que ultrajem ou ofendam o pudor público ou moral pública.


Mas que raio de definição, acho que nós no BBdE conseguiamos fazer muito melhor.

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Re: Censura? Sim, censura.

Postby pco69 » 25 Feb 2009 16:30

Pedro Farinha wrote:
2. Para o efeito do disposto neste diploma, são considerados pornográficos ou obscenos os objectos e meios referidos no número antecedente que contenham palavras, descrições ou imagens que ultrajem ou ofendam o pudor público ou moral pública.


Mas que raio de definição, acho que nós no BBdE conseguiamos fazer muito melhor.


Definição BBDE:

Pornográfico será tudo o que conseguir excitar a líbido do pco69. :mrgreen4nw:
Fenómenos desencadeantes de enfarte do miocárdio

Esforços físicos, stress psíquico, digestão de alimentos, coito, tempo frio, vento de frente e esforços a princípio da manhã.

Ou seja, é extremamente perigoso fazer sexo ao ar livre com vento de frente, após ter tomado o pequeno almoço numa manhã de inverno...

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Re: Censura? Sim, censura.

Postby Samwise » 25 Feb 2009 16:49

pco69 wrote:Pornográfico será tudo o que conseguir excitar a líbido do pco69. :mrgreen4nw:


Não. Demasiado abrangente. :lol2:

Na discussão que tivemos aqui, misturou-se um pouco daquilo que vinha na wiki (salvo erro de uma contribuição do Thanatos), com um pouco do que vinha na lei portuguesa a propósito da classificação de espectáculos (contribuição minha), e com mais as opiniões de algumas (doutas) pessoas.

Muito por alto, e de um ponto de vista estrito, "pornográfico" seria quando o intuito final da "arte" ou do "objecto artístico" não fosse outro que não o de excitar sexualmente o consumidor. Depois vinham as questões da qualidade (que a lei dizia que tinha de ser baixa), e da nudez e apresentação explícita de orgãos e/ou actos sexuais.

Concordo como Pedro, aquela definição é tudo menos objectiva. O que é o "pudor público"? E a "moral pública"? Como se avaliam esses termos de forma concreta? Onde estão os limites? E o que é "ofender"?
Por esta ordem de ideias, a capa do dito livro passa bem por pornográfica...

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Re: Censura? Sim, censura.

Postby pco69 » 25 Feb 2009 18:07

Acho que começa a faltar algum bom senso neste mundo. :rolleyes:
E não é só em Portugal.....

-----


SWAT team suspended over nude photos

Police chiefs have suspended a group of SWAT cops who posed for nude pictures with their weapons out at their graduation party.

The nine elite officers - all men - stripped off and flashed their guns after a night of kinky sex games at the bash in Vastra Gotaland, Sweden.

In one featuring a male stripper, the special forces-trained cops posed for nude snapshots from the waist down while holding their police-issue sub-machine guns for a gay identity parade.

Shocked instructors broke up the bash and suspended the ringleaders from SWAT team duties while confining them to desk jobs.

Police spokesman Erik Nord said: "They say it was supposed to be a joke aimed at the instructors. During the party, a scenario was played out that was intended to shock them. They didn't display the most fabulous sense of judgment."

---
Fenómenos desencadeantes de enfarte do miocárdio

Esforços físicos, stress psíquico, digestão de alimentos, coito, tempo frio, vento de frente e esforços a princípio da manhã.

Ou seja, é extremamente perigoso fazer sexo ao ar livre com vento de frente, após ter tomado o pequeno almoço numa manhã de inverno...

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Re: Censura? Sim, censura.

Postby azert » 25 Feb 2009 18:15

Samwise wrote:Quanto a este caso concreto da apreensão do "Pornocracia", não considero isto um acto de censura, mas antes um acto de ignorância :mrgreen4nw: (ignorância dos zelosos cidadãos que barafustaram, e ignorância dos agentes da autoridade - vulgo: bófias - que procederam à recolha). Compreendo em parte a preocupação dos pais, mas compreenderia melhor se em vez de ficaram irritados com a situação tentassem usar o caso em proveito próprio.


Meu caro Sam, não houve pais nenhuns nem aglomerado de crianças à volta do livro, sei-o de fonte segura. A queixa partiu de um único homem que viu o livro e entendeu que era caso para chamar a polícia a intervir. E a polícia, infelizmente, excessivamente ciosa da sua autoridade, julgou-se no direito de pegar nos livros, sem mais, e apreendê-los.
Como já disse e repito, o título do livro que a polícia anotou no auto é "Pornografia", o que demonstra o cuidado com que tratou a questão, já que nem foi capaz: a) de ler correctamente o título; b ) folhear o livro para constatar que o mesmo não continha imagens; c) (E aqui, já é mesmo pedir de mais!) verificar que o livro nada tinha a ver com pornografia, apesar da raíz comum da palavra que lhe serve de título.

Não creio, sinceramente, que se trate de uma tempestade num copo de água. Tratou-se, para além de manifesta ignorância, de um caso de clara censura.
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Re: Censura? Sim, censura.

Postby Thanatos » 25 Feb 2009 18:34

azert wrote:(...) Não creio, sinceramente, que se trate de uma tempestade num copo de água. Tratou-se, para além de manifesta ignorância, de um caso de clara censura.


Não sei se concorde em absoluto com este uso do termo censura. A censura não pode ser aplicada ad hoc. Pressupõe uma vontade de ocultar algo duma forma muito mais abrangente do que a mera recolha de meia dúzia de livros. Seria censura por exemplo que à saída da tipografia tivessem sido apreendidos TODOS os exemplares ou uma grande percentagem deles.

Tal como se deu o caso é uma mera questão de incompetência e ignorância. tal como a dos polícias que com base num regulamento municipal (mal interpretado e conhecido por eles) decidiram autuar o uso de um tripé para máquina de video a uma equipa da TVI.

Deixo aqui a definição de censura conforme a Priberam:

s. f., cargo ou dignidade de censor; poder do Estado de interditar ou restringir a livre manifestação de pensamento, oral ou escrito, quando se considera que tal pode ameaçar a ordem pública vigente;corporação encarregada de examinar as obras submetidas à sua aprovação; exame; crítica; repreensão.
Não importa como, não importa quando, não importa onde, a culpa será sempre do T!

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Re: Censura? Sim, censura.

Postby Samwise » 25 Feb 2009 18:58

azert wrote:
Samwise wrote:Quanto a este caso concreto da apreensão do "Pornocracia", não considero isto um acto de censura, mas antes um acto de ignorância :mrgreen4nw: (ignorância dos zelosos cidadãos que barafustaram, e ignorância dos agentes da autoridade - vulgo: bófias - que procederam à recolha). Compreendo em parte a preocupação dos pais, mas compreenderia melhor se em vez de ficaram irritados com a situação tentassem usar o caso em proveito próprio.


Meu caro Sam, não houve pais nenhuns nem aglomerado de crianças à volta do livro, sei-o de fonte segura. A queixa partiu de um único homem que viu o livro e entendeu que era caso para chamar a polícia a intervir. E a polícia, infelizmente, excessivamente ciosa da sua autoridade, julgou-se no direito de pegar nos livros, sem mais, e apreendê-los.


Quando falei e pais, estava-me a basear numa das notícias colocadas mais acima no tópico (pois não estive lá nem conheço quem tenha estado), que diz o seguinte:

O segundo comandante da PSP, Subintendente Henriques Almeida, adiantou à Lusa que a exposição dos livros estava a atrair a curiosidade das crianças que brincam na zona - uma área pedonal no centro da cidade - cujos pais se mostravam incomodados com o facto.

As crianças, que ali brincam em grande número, terão visto o livro e começado a chamar outras para irem ver a pintura, o que levou as mães e os pais a chamar a PSP, acentuou.

"Havia possibilidade de haver discussões e mesmo desacatos entre os livreiros e os pais das crianças", afirmou, frisando que vários cidadãos se dirigiram ao piquete da polícia que se encontra "de guarda" ao Banco de Portugal queixando-se e ameaçando "tomar medidas".




Como já disse e repito, o título do livro que a polícia anotou no auto é "Pornografia", o que demonstra o cuidado com que tratou a questão
Se isso era o que estava escrito no auto, os senhores do quiosque podiam bem ter-se recusado a acatar a ordem, uma vez que estava dirigida a um livro que não tinham (isto não teria efeito prático nenhum, mas sempre irritava um pouco os agentes). Tens razão quanto à falta de cuidado.

a) de ler correctamente o título


Acho que eles estavam de olhos em bico noutra coisa...

b ) folhear o livro para constatar que o mesmo não continha imagens c) (E aqui, já é mesmo pedir de mais!) verificar que o livro nada tinha a ver com pornografia, apesar da raíz comum da palavra que lhe serve de título.
Estas questões são irrelevantes. O que estava em avaliação era mesmo a capa do livro. Não o conteúdo ou o título.

Volto a frisar a minha opinião: não interessa se a imagem é um objecto de arte, se está exposta num museu famoso, ou se é de um quadro de um pintor consagrado. Se a imagem fosse pornográfica, então seria para remover da bancada (embora não da forma como foi feito, por apreensão) .

Não creio, sinceramente, que se trate de uma tempestade num copo de água. Tratou-se, para além de manifesta ignorância, de um caso de clara censura.


Eu reformulo a minha frase inicial: foi censura por ignorância e excesso de zelo. Mas à mesma foi um caso sem importância ou dimensão. Tanto assim que voltou à situação inicial sem grandes desacatos.

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Re: Censura? Sim, censura.

Postby Samwise » 25 Feb 2009 20:50

Ok... vamos subir um pouco mais a fasquia.

(atenção, o link contem imagens que poderão ferir algumas susceptibilidades)

Arte, Pornografia, ou as duas coisas?

O primeiro quadro apresentado é quase igual ao do da capa do livro. Os outros... é melhor verem por vocês.

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Re: Censura? Sim, censura.

Postby azert » 25 Feb 2009 21:00

Thanatos wrote:Não sei se concorde em absoluto com este uso do termo censura. A censura não pode ser aplicada ad hoc. Pressupõe uma vontade de ocultar algo duma forma muito mais abrangente do que a mera recolha de meia dúzia de livros. Seria censura por exemplo que à saída da tipografia tivessem sido apreendidos TODOS os exemplares ou uma grande percentagem deles.


E eu não sei se concordo com a tua discordância! :mrgreen4nw: Se o critério é a abrangência, que dizer das cartas que eram cencuradas no tempo do estado novo? Uma carta de um particular censurada, cencura essa que é do conhecimento apenas do destinatário da carta, é ou não censura?
Continuo a dizer que esta questão, tal como se deu, foi um acto de censura. Local, de pequenas dimensões, é certo, mas censura, quand même.

Sam, eu sei que a referência aos pais e às crianças não foi da tua responsabilidade, eu é que quis ver a verdade reposta, ainda que perante tão reduzido quorum. :smile:
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Re: Censura? Sim, censura.

Postby Samwise » 25 Feb 2009 21:18

Bem... pela definição que o Thanatos apresentou, nada liga a censura ao acto de impedir imagens de serem apresentadas em público. :mrgreen4nw:

...interditar ou restringir a livre manifestação de pensamento, oral ou escrito...


Fora de brincadeira, creio que a ideia dele faz algum sentido. Censura no sentido de haver 1) uma estrutura estabelecida para o efeito, 2) com regras que visam ser aplicadas numa fase anterior à publicação/apresentação de conteúdos.

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Re: Censura? Sim, censura.

Postby Cerridwen » 25 Feb 2009 22:50

Samwise wrote:Concordo como Pedro, aquela definição é tudo menos objectiva. O que é o "pudor público"? E a "moral pública"? Como se avaliam esses termos de forma concreta? Onde estão os limites? E o que é "ofender"?
Por esta ordem de ideias, a capa do dito livro passa bem por pornográfica...

Tal como muitos outros termos contidos na legislação portuguesa (tais como "ordem pública" e "bons costumes"), são subjectivos. Carecem de ser interpretados e aplicados a cada caso.

A propósito de legislação:

No caso da apreensão dos livros com esta imagem, "não está em causa a ilegalidade mas a sensibilidade de alguns que a polícia não tutela", resume o advogado Rogério Alves, ex bastonário da Ordem dos Advogados.

Confrontada com queixas de cidadãos a PSP "deveria limitar-se a advertir os mais sensíveis que, na ausência de uma norma expressa a proibir a exibição deste tipo de imagens, teriam de se conformar e não se aproximar", diz Rogério Alves.

E se estivesse em causa a tranquilidade pública, mais teriam de advertir as pessoas de que seriam obrigados a actuar sobre quem perturbasse a ordem, já que "a exposição do nú artístico não é ilegal e não pode ser reprimida", acrescenta. O advogado nota ainda que o artístico e o estético não podem ser confundidos com o pornográfico.

Esta é, aliás, uma diferença consagrada no decreto lei de 1976 promulgado pelo então Presidente da República, Costa Gomes, que nem sequer foi invocado pela Polícia de Segurança Pública de Braga, mas ao abrigo do qual o Ministério Público determinou a retirada, na semana passada, de uma das construções do carnaval de Torres Vedras que satirizava o computador Magalhães.

Este decreto que estabelece medidas "relativas à publicação e comercialização de objectos e meios de comunicação social de conteúdo pornográfico" refere, na sua introdução, que foi elaborado para fazer face "à exploração mercantil" do pornográfico e obsceno" e não "do erótico ou do nu artístico".

A confusão entre imagens pornográficas e de conteúdo erótico pode "configurar um erro grave da PSP" também no entender do juiz desembargador António Martins notando que "o facto ilícito tem de ser algo fácil de enquadrar".

O que se passou em Braga numa feira de livros em saldo é "absolutamente inadmissível" na opinião do bastonário da Ordem dos Advogados, Marinho Pinto. "É um atentado à liberdade de expressão que lembra os piores tempos de antigamente", diz.

O bastonário da Ordem dos Advogados lembra, aliás, que a competência para tomar uma decisão deste tipo pertence aos tribunais e não à PSP. Referindo também o recente episódio registado no Carnaval de Torres Vedras, Marinho Pinto defende que, os responsáveis máximos por estas acções, o procurador-geral da República, neste caso, e o ministro da Administração Interna, no caso de Braga, "devem explicar ao país o que se passou".

Para o juiz desembargador António Santos Carvalho, a apreensão dos livros em Braga traduz-se, sobretudo, num "erro grave" na aplicação da lei "que identifica o baixo nível cultural generalizado" demonstrado pelo desconheciumento da obra de Coubert.

Notando que, para ascender ao lugar de comandante da polícia já é necessária uma licenciatura e conhecimentos culturais mais vastos, o juiz considera a decisão tomada pelo Comando da PSP "uma falha monumental no campo da cultura", além de um "atentado à liberdade de expressão" e "uma forma de descriminação desproporcionada".

Estes recentes episódios somam-se a outros mais antigos, como o que se registou em Viseu, em 2004. Dois agentes da PSP entraram numa livraria para avisar os seus responsáveis que deveriam retirar da montra um ensaio sexual em banda desenhada da autoria do espanhol Alvarez Rabo. Segundo um então colaborador da livraria, os polícias justificaram a sua atitude pelas várias queixas que tinham recebido da parte de cidadãos, justificando-se com a explicação de que Viseu era "uma cidade muito especial e aquele livro não ficava bem na montra".

Sinais preocupantes no entender do juiz António Martins. "Estamos a dar sinais errados em termos de sociedade", salienta.

O magistrado António Martins considera que as situações e os alertas registados recentemente de interferência nas esferas da liberdade de expressão e da liberdade sindical levantam a ideia referida por Orwell de uma sociedade "altamente vigiada e limitadora do sentido crítico das pessoas que se deve querer em democracia", nota.

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Re: Censura? Sim, censura.

Postby azert » 26 Feb 2009 00:39

Cerridwen wrote:
No caso da apreensão dos livros com esta imagem, <!--coloro:#ff0000--><!--/coloro-->"não está em causa a ilegalidade mas a sensibilidade de alguns que a polícia não tutela"<!--colorc--><!--/colorc--><!--coloro:#000000--><!--/coloro-->,<!--colorc--><!--/colorc--> resume o advogado Rogério Alves, ex bastonário da Ordem dos Advogados.

Confrontada com queixas de cidadãos a PSP "deveria limitar-se a advertir os mais sensíveis que, na ausência de uma norma expressa a proibir a exibição deste tipo de imagens, teriam de se conformar e não se aproximar", diz Rogério Alves.

Sinais preocupantes no entender do juiz António Martins. "Estamos a dar sinais errados em termos de sociedade", salienta.

Paula Torres de Carvalho, Ípsilon



Ora aí está! Bastou que um senhor, de alta sensibilidade e não proporcional cultura se tivesse sentido ofendido pela exposição do livro para que a polícia interviesse com toda a sua abusiva força (ainda que na pessoa de um único membro), decidindo no momento e no local, sem qualquer averiguação minimamente profunda, da justeza da queixa do cidadão e da consequente apreensão dos livros.
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Re: Censura? Sim, censura.

Postby Samwise » 26 Feb 2009 00:58

Cerridwen wrote:Tal como muitos outros termos contidos na legislação portuguesa (tais como "ordem pública" e "bons costumes"), são subjectivos. Carecem de ser interpretados e aplicados a cada caso.


O que, na verdade, é um grande perigo, como se pode constatar no caso em questão. Para aquele senhor, ou senhores, a capa do livro era pornográfica, constituía um atentado ao pudor, e na avaliação da polícia local, o caso estava em vias de perturbar a "ordem pública", facto que os levou a confiscar os livros. Quem tem razão?


Algumas considerações acerca das interpretações dos juízes, bastonários, etc...

No caso da apreensão dos livros com esta imagem, "não está em causa a ilegalidade mas a sensibilidade de alguns que a polícia não tutela", resume o advogado Rogério Alves, ex bastonário da Ordem dos Advogados.

Confrontada com queixas de cidadãos a PSP "deveria limitar-se a advertir os mais sensíveis que, na ausência de uma norma expressa a proibir a exibição deste tipo de imagens, teriam de se conformar e não se aproximar", diz Rogério Alves.
Até aqui, nada a dizer.

E se estivesse em causa a tranquilidade pública, mais teriam de advertir as pessoas de que seriam obrigados a actuar sobre quem perturbasse a ordem, já que "a exposição do nú artístico não é ilegal e não pode ser reprimida", acrescenta. O advogado nota ainda que o artístico e o estético não podem ser confundidos com o pornográfico.


Aqui já coloco reservas. Pelo que ele diz, não pode haver confusão entre o pornográfico e o nu artístico. Mas onde acaba um e começa o outro? Onde estão as regras objectivas que permitem separar as águas?

Não é, de certeza, no já referido decreto...


Esta é, aliás, uma diferença consagrada no decreto lei de 1976 promulgado pelo então Presidente da República, Costa Gomes, que nem sequer foi invocado pela Polícia de Segurança Pública de Braga, mas ao abrigo do qual o Ministério Público determinou a retirada, na semana passada, de uma das construções do carnaval de Torres Vedras que satirizava o computador Magalhães.

Este decreto que estabelece medidas "relativas à publicação e comercialização de objectos e meios de comunicação social de conteúdo pornográfico" refere, na sua introdução, que foi elaborado para fazer face "à exploração mercantil" do pornográfico e obsceno" e não "do erótico ou do nu artístico".
... uma vez que deixa a definição de "pornografia" em terras do "Subjectivo Seja Qual for a Abordagem":

«
2. Para o efeito do disposto neste diploma, são considerados pornográficos ou obscenos os objectos e meios referidos no número antecedente que contenham palavras, descrições ou imagens que ultrajem ou ofendam o pudor público ou moral pública.
»

A confusão entre imagens pornográficas e de conteúdo erótico pode "configurar um erro grave da PSP" também no entender do juiz desembargador António Martins notando que "o facto ilícito tem de ser algo fácil de enquadrar".


Que, segundo a legislação disponível, manifestamente não é!

O que se passou em Braga numa feira de livros em saldo é "absolutamente inadmissível"na opinião do bastonário da Ordem dos Advogados, Marinho Pinto. "É um atentado à liberdade de expressão que lembra os piores tempos de antigamente", diz.


Uma pessoa que prima sempre pelo discurso moderado e sereno... :mrgreen4nw:

O bastonário da Ordem dos Advogados lembra, aliás, que a competência para tomar uma decisão deste tipo pertence aos tribunais e não à PSP. Referindo também o recente episódio registado no Carnaval de Torres Vedras, Marinho Pinto defende que, os responsáveis máximos por estas acções, o procurador-geral da República, neste caso, e o ministro da Administração Interna, no caso de Braga, "devem explicar ao país o que se passou".


Explicar o quê? Que a polícia actuou com excesso de zelo? Será assim muito complicado de perceber?

Para o juiz desembargador António Santos Carvalho, a apreensão dos livros em Braga traduz-se, sobretudo, num "erro grave" na aplicação da lei "que identifica o baixo nível cultural generalizado" demonstrado pelo desconhecimento da obra de Coubert.

Notando que, para ascender ao lugar de comandante da polícia já é necessária uma licenciatura e conhecimentos culturais mais vastos, o juiz considera a decisão tomada pelo Comando da PSP "uma falha monumental no campo da cultura", além de um "atentado à liberdade de expressão" e "uma forma de descriminação desproporcionada".


Esta argumentação é mesmo o máximo... eu acrescentaria que, para aumentar os níveis de cultura dos dito agentes, certamente adquiridos ao longo da referida licenciatura, os comandantes de polícia passassem a frequentar alguns sites pornográficos e visionassem na esquadra, todas as semanas, alguns títulos do género, para complementar os que já vêem em casa. Só para garantir que não voltem a falhar monumentalmente no campo da cultura.

Sinais preocupantes no entender do juiz António Martins. "Estamos a dar sinais errados em termos de sociedade", salienta.
É verdade. É pena é que este comentário seja feito a propósito de um acto isolado (ou dois, ou três), perfeitamente inofensivo, e nada representativo da normal actuação das autoridades em Portugal. É uma tempestade num copo de água.

O magistrado António Martins considera que as situações e os alertas registados recentemente de interferência nas esferas da liberdade de expressão e da liberdade sindical levantam a ideia referida por Orwell de uma sociedade "altamente vigiada e limitadora do sentido crítico das pessoas que se deve querer em democracia", nota.


Idem aspas. Este até fala do Orwell.

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Re: Censura? Sim, censura.

Postby Samwise » 27 Feb 2009 21:06

Ainda acerca deste caso, três citações de três blogs, três risotas mal escondidas. :mrgreen4nw:


1 -
A apreensão de alguns exemplares de Pornocracia, de Catherine Breillat (Teorema), numa feira de livros em Braga, foi um disparate e um acto de prepotência, entretanto reparado. Ponto. Porém, segundo o juiz desembargador António Santos Carvalho, ouvido pelo Público, trata-se de «uma falha monumental no campo da cultura [uma vez que]para ascender ao lugar de comandante da polícia já é necessária uma licenciatura e conhecimentos culturais mais vastos». Eu dou um rebuçado ao senhor juiz se 1% dos licenciados portugueses — e não necessariamente dos que concorrem à polícia ou à magistratura — tiver alguma vez ouvido falar de Cindy Sherman ou Matthew Barney. Courbet? A que título? Por outro lado, e é aqui que eu quero chegar, se em vez de Courbet estivesse lá um desenho de Cocteau (o que vemos ao alto é quase infantil; a reprodução é má, mas se clicar na imagem vê melhor) ou um retrato de Mapplethorpe — talvez Lou, se vossas excelências tiverem estômago —, a indignação seria, como neste caso, a uma só voz? Um quadro de 1866, exposto no d’Orsay, equivale hoje a uma lata de Sopa Campbell de Andy Warhol. Mas o Cocteau erótico — o de Le Livre Blanc, de 1927, e dos ulteriores desenhos — continua, na pátria das Luzes, arredio das bibliografias oficiais. E Mapplethorpe, como muita gente sabe, foi censurado (nos anos 1990) no Whitney, que não é exactamente uma feira a dois passos do Bom Jesus. Portanto...

Texto acompanhado de uma imagem, aqui: http://daliteratura.blogspot.com/2009/02/ainda-coubert.html


2 -

(A propósito, quem foi a luminária que decidiu que, lá por uma coisa ser arte, não pode ser também pornografia?)
Texto acompanhado de uma imagem, aqui: http://blogoexisto.blogspot.com/2009/02/de...idolatrica.html


3 -
«O que espanta no episódio de Braga e no episódio de Torres Vedras não é o zelo do Ministério Público ou da PSP. O que espanta é que eles claramente não vivem em 2009. Nunca viram um anúncio numa rua ou na televisão, nunca viram um filme e nunca ouviram a música dita popular - nunca, presumo, puseram o pé fora da igreja. Porque, se puseram, compreenderam com certeza, ou são incalculavelmente estúpidos, que a sociedade está saturada de pornografia. Ainda anteontem, por exemplo, a respeitabilíssima RTP mostrou uma obra de arte (não duvido da arte), em que cinco ou seis mulheres (nuas) exploravam longamente as possibilidades do sexo em grupo. Que tencionam fazer o Ministério Público, a PSP e, já agora, a devotíssima cidade de Braga para acabar com estes desvarios do século? Só me ocorre uma solução: arrasar Portugal e fechar as fronteiras.»

Vasco Pulido Valente, Público, 27.02. 09.

Só texto, aqui: http://hojehaconquilhas.blogs.sapo.pt/878582.html



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