Uma questão de semântica (author's cut)

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Uma questão de semântica (author's cut)

Postby Ripley » 15 Mar 2010 15:42

...(1)...

Arailo Yeoh-Sutton deixou descair a cabeça para trás. Os olhos picavam-lhe do esforço continuado de visualização de intermináveis linhas de código num painel ocular a poucos centímetros da sua cara, francamente parecido com uns óculos de protecção. Por mais que a programação tivesse evoluído, boa parte ainda era assegurada por linhas de instruções definindo uma sequência de acções e respostas. Mas gostava de o fazer. Era uma forma de comunicação com as máquinas. Cibernética, estudo da transmissão de informação: a sua área de vocação.
A seu lado, Juarez Birmingham dormitava, as codificações já compiladas flutuando à sua frente no visor de gás inerte.

Arailo tirou os óculos e os fones – onde se ouvia uma relíquia do século XX de um sujeito chamado Herbie Hancock - levantou-se e tocou numa área da parede, despolarizando o plexicrílico. Já era dia e o céu cor de ferrugem clareava. Dirigiu-se ao cubículo de serviço e gastou algumas gotas da sua dose de água para lavar os olhos com cuidado. Voltou à janela e encostou o ombro à parede, enquanto a mudança de tom atrás de si lhe indicava que Juarez já ressonava. Tanta coisa evoluía, tanta coisa mudava... mas numa colónia recente como aquela, cirurgia de precisão não era uma prioridade. Os dois médicos – e primeiro casal formado na colónia – Lee Alvaredo e Liao Qwanshi, tinham muito trabalho com os partos ou pequenos acidentes e ferimentos no dia-a-dia da colónia, enquanto iam treinando alguns voluntários para pequenas tarefas de enfermagem. Operar tecidos nasais para eliminar o ressonar não eram, de facto, prioritários.

- Birmingham, acorda! Terminaste ou não?
- (grhshm... rmmbll...si, si...)
- BIR-MIN-GHAMM!
- Haaah! – com um ar desnorteado Juarez endireitou-se na cadeira, o olhar turvo e confuso por trás do visor ainda colocado sobre o nariz.
Arailo abanou a cabeça e estendendo as duas mãos, retirou gentilmente os óculos de Juarez.
- Birmingham, tu um dia ainda acordas dentro do programa que estás a escrever.
- Deixa-me em paz, Sutton. Estive 38 horas seguidas sem dormir, a corrigir as subrotinas e fazer o debug à minha parte do programa.
- Conseguiste, ao menos? – o tom era trocista.
- Sutton, tens obrigação de saber que isso não é pergunta que se faça!

Juarez olhava para Arailo de cenho franzido e ar irritado, o que fez com que esta desatasse a rir.
- Devias ver-te a um espelho agora, Birmingham. Um holo teu com essa cara devia ser excelente para fixar na porta do armazém de víveres e espantar os yezhrans.
Ao ouvir isto, Juarez começou a rir também. Caíra mais uma vez na esparrela de Arailo, que garantia ser capaz de a tirar do sério sempre que quisesse.

- Ressonei muito?
- Oh, imenso. Aliás, foi graças a isso que me mantive acordada.
- Sutton, podias ter deixado isso para o lado...
Juarez aproximou-se e a sua mão morena afastou o cabelo da face de Arailo. Quando esta levantou a cabeça, os lábios de ambas encontraram-se por momentos.
- Raios, Birmingham. Estamos de serviço ainda! Ou melhor, eu estou porque ainda não terminei!
- Queres ajuda?
- Deixa, vai descansar que bem precisas.
- Tonta! Fiz o turno duplo para estar contigo e sairmos daqui juntas... quero ir dormir mas enroscadinha contigo! Eu ajudo-te, vá. Onde queres que pegue?

Juarez voltou a sentar-se e colocou novamente o visor, mudando o ponto de acesso para o terminal que Arailo estava a usar. Esta ordenara ao código que voltasse ao início para ser visto.
- Viste até que i ?
- Revi todos, mas é claro que me falhou alguma coisa e não vejo onde!
- Tem calma. Ora ... este... ali, ok... fecha em baixo... Qual é o array? Espera lá... usaste um fflush no input?
- Eu nunca faço isso! Aliás, o scanf não foi usado!
- Então tens aí o teu erro.
- Ohh, bolas! A primeira parte foi feita pela Barrow... Ela tinha usado scanf mas eu optei por tirá-lo porque o string era tão pequenito que eu vi os resultados à unha! Como é que me esqueci de alterar o resto?
- Deixa lá... alguns compiladores poderiam ter conseguido lidar com isso. Infelizmente, o nosso não. Vê o lado positivo: achámos o gato e podemos pô-lo fora.

Arailo sorriu embora com alguma tristeza. Em Kinang não havia animais de estimação, seria impensável trazê-los da Terra e as espécies locais não pareciam domesticáveis. Ela tinha imensa saudade de Jay, o Maine Coon que fora dormir para o seu quarto quando ainda tinha o tamanho de um peluche. Agora era Hekky, o irmão mais novo, quem tomava conta dele.

- Sutton, acorda! Já está!
- Eh... sem ti iria passar horas nisto, não sei como te agradecer!
- Hmm, quando sairmos daqui conversamos...

Transferiram a aplicação finalizada para o servidor principal e fizeram-na correr.
- Afinal isto era para quê, Birmingham?
- Processar as imagens do satélite que deixámos em órbita antes de aterrar... Fiquei com a ideia de que procuravam algo muito específico mas não sei o quê.

O visor principal faiscava a cada nova linha de resultados. Juarez diminuiu o contraste que lhes cansava ainda mais a vista.
Locale: grid 1 – verified; null
Locale: grid 2 – verified; null

- Vamos dormir. Quem entra de turno agora?
- O Peng. Não deve tardar, ele chega sempre cedo.

Mal acabara de dizer isto, Qwai Peng aproximou-se e cumprimentou-as com uma pequena vénia.
- Para quê tanto formalismo, Qwai? Somos tão poucos por aqui...
- Isso não interessa, Yeoh-Sutton. Os Kin gostam de manter certas tradições apesar dos Anglospan não darem importância a isso. Aliás, tu própria deverias ter algum apego, por pouco que fosse...

A alusão de Qwai Peng à sua miscigenação fez Arailo rir. Ele espicaçava-a sempre por causa daquela costela Kin... só que a sua mãe não era uma Kin vulgar. Logo para começar, fora estudar longe de casa – e voltara casada com um Anglospan, para horror dos seus avós. A divisão entre os dois grupos étnicos era tão vincada que tinham enviado missões separadas para o mesmo projecto conjunto, a segunda fase da colonização de Kinang. O que tornava tudo tão engraçado era o facto de Peng estar formalmente unido a Nadal Barrow, que de Kin não tinha nada. Longe da Terra, algumas coisas tornavam-se diferentes.
Na realidade, Arailo até dava alguma importância ao formalismo – fora ela que insistira com Juarez para que continuassem a tratar-se pelos apelidos nas horas de serviço, tal como todos os outros.

- Deixaram já isto a correr? E eu a pensar que ia ter alguma coisa para fazer além de olhar para linhas de resultados...

As duas Progz acenaram-lhe e dirigiram-se para o alojamento que partilhavam desde a chegada. Formarem uma união fora uma consequência da distribuição que as colocara juntas. Afinal, tal como na Terra, os grupos profissionais tendiam a manter-se juntos mesmo nas actividades sociais. Progz, Engz, Tekz, Medz, interagiam preferencialmente dentro do seu próprio grupo, tornando-se quase subculturas com linguagens próprias.

Juarez tinha uma infinita admiração pela primeira leva de colonos, Engz e Const responsáveis pela terraformação que lhes permitira encontrar à chegada algo parecido com uma cidadezinha em vez de uma planície deserta - depósitos e mecanismos de captação e reciclagem de água, células de energia, estufas hidropónicas, todas as infrastruturas essenciais a uma pequena comunidade.

- A sério, Arailo... a tua mãe não te chateia por não teres um homem?
- A minha mãe??? Juarez, ela acha que eu devo estar como me sinta melhor. E, neste momento, é contigo que me sinto bem!

Juarez disfarçou uma ligeira tristeza. Em termos emocionais, Arailo vivia um dia de cada vez, sem fazer projecções a médio prazo sequer. “Nem sei se amanhã estarei viva”, dizia como argumento para não assumir compromissos definitivos. No entanto, participar naquela missão era na verdade algo bastante definitivo – não havia previsão de regresso.

Fecharam a porta ao sol avermelhado e polarizaram as janelas. Pousaram as roupas de forma desordenada junto ao leito e deixaram-se cair no colchão de polímeros. Arailo adormeceu quase antes de se deitar completamente. Vinte segundos depois, Juarez ressonava.
"És a metade que me é tudo." [Pedro Chagas Freitas]
---§§§---
"O amor não se percebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende." [Miguel Esteves Cardoso]

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Re: Uma questão de semântica (author's cut)

Postby Ripley » 15 Mar 2010 15:55

...(2)...

Ao acordar, aperceberam-se de algum burburinho.
Talvez tivessem apanhado um shayak vivo – ou então nascera mais um bebé na colónia. Aliás, Weng Xia estava perto do fim do tempo. Como ela conseguia trabalhar na cozinha comunitária com aquela enorme barriga era um mistério.

Usaram a água plurireciclada para se lavarem, rezando pelo dia em que os Tekz conseguissem terminar os novos condensadores de humidade atmosférica que estavam a construir no interior da colina próxima. As suas gigantescas serpentinas tornariam desnecessária a reciclagem quase infinita da água para lavagens, que em algumas pessoas causara já problemas dermatológicos.
Quando saíram do alojamento, viram imensa gente reunida junto do edifício que tinham abandonado horas antes – o Tekcenter, humoristicamente chamado K.I.T.

- Birmingham, Sutton! Venham cá! – Era Nadal Barrow que gritava.
- O que foi? Encontraram um lençol freático grande?
- Não, pá! O programa que vocês terminaram... achou qualquer coisa!
- Estás a brincar??? O quê?
- Não faço ideia! Só os Adminz é que sabem o que procuravam. Estamos à espera que nos digam qualquer coisa!

Juntaram-se à pequena multidão e aguardaram.
Na porta principal surgiram Emmet Chavez e Yao Quon, engenheiros e chefes da equipa de planeamento da colónia – os Adminz.
O sistema de som estava ligado, assegurando que toda a colónia ouviria a sua comunicação fosse o que fosse que estivessem a fazer.
- Companheiros, conforme programámos, o satélite detectou algo importante. Vamos precisar de voluntários para irem verificar se o achado é de facto o que pensamos... o que sobra da primeira nave chegada a este planeta – uma sonda de exploração e registo. Nos equipamentos da sonda deverão estar contidos anos de informações preciosíssimas sobre este belo planeta, que queremos recuperar para nos proporcionar uma melhor compreensão deste que é o nosso novo lar.

- Arailo ... aquela besta disse que “eles” é que programaram o satélite?
- Sabes como eles são pomposos. Dizerem qual era a finalidade pretendida para o programa deve ser, para eles, o mesmo que programarem.
- Eu vou dizer-lhes umas verdades, vou sim.
- Juarez, não! Não!
Já era tarde. Juarez avançara entre os presentes até se deter diante dos dois empertigados Adminz.
- Companheiros, o vosso aplauso para Juarez Birmingham! – ela sorriu, pensando que estavam a reconhecer publicamente o seu trabalho até que ... – É a primeira voluntária desta missão! Quantos de vós quererão imitá-la e ajudá-la?

Ao seu lado surgiu Arailo, resmungando entredentes “Eu disse-te para não vires, já sabia que isto ia acontecer” enquanto sorria e se dava também como voluntária.
Juntaram-se a elas Hinuroa Alaysone e Teraki Nogata, pilotos. Eram dos poucos que conservavam nomes anteriores às fusões étnicas que tinham gerado os dois maiores grupos em que a população da Terra ficara dividida. O terceiro grupo, dos Afrarab, não tinha enviado ninguém na missão – o projecto fora abortado por mais um dos inúmeros golpes de estado a que estavam sujeitos com alguma frequência. Um terceiro piloto, Ingeborg Vasconcelos, ficou de serviço no Tekcenter caso fosse necessária alguma ajuda técnica.


O veículo de superfície a que habitualmente chamavam “flutuador” era pouco usado porque se servia de baterias iónicas carregadas pela luz solar. Mas aquele sol avermelhado que tantas vezes se escondia atrás de uma cortina de nuvens não dava para carregar grande coisa, daí que enquanto os Tekz não arranjassem uma energia alternativa, o flutuador só era usado para algo realmente importante. E neste caso, era mesmo.

Percorreram os quilómetros de planície desabitada e o vasto lago oleoso e salgado, quase um mar interior, que estava assinalado nos mapas mas onde nenhum deles se atrevera a ir com receio dos animais que desconheciam.

- Dois clicks à frente! Ali está!

Num ligeiro planalto havia uma depressão onde a face de outra montanha se erguia. Aí jazia uma nave esguia.
Nogata pousou habilmente o flutuador a curta distância da nave. Tinham-lhes falado de uma sonda, mas aquilo era maior. Não muito, mas maior.
Depois de verificar o solo com os instrumentos, Alaysone abriu as escotilhas.

- Vamos lá então!
- Eu fico, Alaysone. Mantém o comm ligado, por favor.
- Sim, sim, ok, pronto... Este Teraki é um chatinho. Bom piloto, mas um chatinho.

Chegaram perto da nave, um fuso metálico alongado. Era uma sonda, mas tripulada. Poucas daquelas tinham sido lançadas – ante a forte possibilidade de não regressar, os voluntários tinham sido muito escassos, e à maioria desses faltava a estabilidade psicológica para uma longa viagem espacial.

- Onde será que se abre a escotilha?
- Deste lado não vejo nada
- Aqui também n... espera, há um painel aqui! Alaysone?
Hinuroa Alaysone dobrou-se para a frente, olhando para o painel alfanumérico de 12 botões.
- Nogata?
- Diz.
- Vou tentar o Universal. Concordas?
- Sim, completamente de acordo.

Alaysone respirou fundo e digitou uma sequência de caracteres que as mulheres não identificaram. Lentamente, com um whoosh, a escotilha abriu-se.
"És a metade que me é tudo." [Pedro Chagas Freitas]
---§§§---
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Re: Uma questão de semântica (author's cut)

Postby Ripley » 15 Mar 2010 16:06

...(3)...

O ar da sonda era respirável mas cheirava a ... bafio? Meias velhas? Fosse o que fosse, denotava um longo período de encerramento. O espaço era estreito e obrigou-os a andar em fila indiana. Inconscientemente, começaram a falar baixinho uns com os outros.
- Sutton e Birmingham, vejam onde põem os pés.
- Alaysone, que achas que aconteceu aos tripulantes da sonda?
- Esperemos que os registos no-lo digam. Aliás, a especialista de cibernética és tu, não és? Portanto vê lá se conversas com as maquinetas...

Chegaram à cabine. Um lugar de pilotagem apenas, os painéis cobertos lançando o espaço na obscuridade.
- Ei, venham cá!
Nem tinham dado conta de que Juarez não os seguira e foram o mais rápido possível para a parte traseira da sonda, mais larga.
- Ah, acendeste a luz... O que é isso?
- Epá ... era capaz de jurar que é uma cápsula de estase embora seja diferente das que conheço.
- Naquela altura já havia estase?
- Arailo, esta sonda não tem éons, ok? Pelos registos da base, foi enviada há cerca de duzentos anos-Terra. Já havia estase na altura embora não tão aperfeiçoada como agora. Talvez seja essa a razão da diferença!
- Xii... e quem está aí dentro?
- Só há uma maneira de saber, não achas?

Alaysone avançou a mão para um painel na parte lateral da cúpula semi-opaca. Preso sob o rebordo havia um pedaço de plastipapel com a indicação dos passos necessários à desactivação da estase.
- Alguém sabia que haveríamos de chegar cá. Mas os passos não são os habituais.
- Hmm, não será melhor comunicar à base o que encontrámos? Ainda levamos um responso por termos tomado a iniciativa!
- Olha lá ... queres que voltem a apresentar-se como tendo sido eles a fazer tudo? Temos um piloto habilitado que sabe mexer nisto, portanto vamos ver!
- Juarez, ela tem razão. Vou pedir ao Teraki que comunique à base o que encontrámos. E entretanto avançamos com a desactivação, escusamos de esperar.

Nogata ouvira tudo pelo comunicador e enviou as informações ao Tekcenter. Ao ouvir a resposta, surgiu-lhe um trejeito que permaneceu até falar com Alaysone.
- Malta... mandaram-nos avançar.
- Assim sem mais nem menos? Olha, boa... e nós a pensar que eles queriam a glória.
Nogata não conseguiu conter o riso.
- Acho que a questão não foi essa. Disseram, e passo a citar: “não há necessidade de colocar mais vidas em risco nessa experiência, por favor avancem.”
- Ahh! Estão com medinho e nós somos dispensáveis, é isso?
O riso comunicou-se às Progz, que abanavam a cabeça.
- Alaysone, então estamos por nossa conta. Estás à espera de quê?
- Olha, Sutton, nem eu sei!

Seguiu fielmente os pontos anotados no plastipapel e alguns minutos depois a cúpula começou a iluminar-se progressivamente no interior, revelando uma figura alta em fato de voo.
- Não é possível!!!
- Não acredito! Sam Bloomfield????
Juarez olhou-os com estranheza.
- Quem é Sam Bloomfield? O gajo aí dentro?
Arailo arregalou os olhos.
- Birmingham, Sam Bloomfield foi uma sumidade na Cibernética! Fez experiências com A.I. e os primeiros ensaios com andróides.
- Ah, então inventou o C3PO! ... Ai, não olhem para mim com essa cara!
- Sam Bloomfield introduziu grandes alterações nos computadores de navegação espacial. Auto-programação por tradução de linguagem humana para código, vocalização de pedidos de input, output vocais em vez de listas de dados...
- Ok, pronto! Já percebi que foi uma sumidade, um craniozinho, adiante! O que raio faz ele aqui?
- Não sei. Falou-se em que teria ido para uma colónia qualquer, que teria morrido numa experiência ... nunca ouvi dizer que tivesse tripulado uma sonda.
- Olhem, parece que está a acordar... vamos mas é perguntar-lhe.

A figura encerrada na cápsula piscava os olhos entreabertos. Lentamente, virou a cabeça e olhou para eles. Um sorriso desenhou-se-lhe nos lábios.
- Sempre chegaram...
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Re: Uma questão de semântica (author's cut)

Postby Ripley » 15 Mar 2010 16:08

...(4)...

- Tu... és o Sam Bloomfield...
O sorriso tornou-se triste enquanto se levantava.
- Não. Sam morreu há muito tempo. Mas podem chamar-me Sam2.
- Quem és tu?
- Sou um andróide. Sam era um especialista em robótica e cibernética, como devem saber...
- Claro que sim! Não sabíamos que fazia parte deste projecto.
- Sam era o único tripulante da sonda. Quando morreu a esposa, achou que já não havia mais nada para ele na Terra e ofereceu-se para a missão.
- Não fazia ideia...
- Vieram por causa dos dados, certo?
- Sim, é óbvio. Quero dizer, para nós é. Onde estão?
Sam2 apontou para o crânio.
- Aqui dentro. Terão que me desactivar definitivamente para os recuperar.
- Não, isso não!
- É o vosso trabalho e a minha missão. Sam ordenou-me que esperasse e vos ensinasse o que deveriam fazer para aceder aos dados.
- Mas não tens nenhum mecanismo de download de informação? Não te podemos ligar a algum terminal ou assim?

O andróide abanou a cabeça - um gesto tipicamente humano.
- Tenho ponto de acesso mas apenas para input. Para transmitir informação poderia fazê-lo verbalmente, mas com a quantidade de dados que possuo isso iria demorar algumas dezenas de anos. Não, devo mesmo ser desactivado.
- Não, tem que haver outra solução. Tu és... quase humano!
- Apenas na aparência. O meu corpo é feito de carne sintética, não sinto dor ou emoção.

Juarez interrompeu-o.
- Espera lá. Se és sintético, para quê a cápsula de estase?
O andróide sorriu ligeiramente – mais um gesto tão humano como o seu aspecto.
- Não é de estase biológica pura... Sam modificou-a para funcionar quase como um carregador que me mantivesse em standby de baixo consumo ao mesmo tempo que me protegia os tecidos biosimbióticos.
- És mesmo uma máquina em forma de gente! Mas não pareces.
Sam2 encolheu os ombros. Aqueles gestos incomodavam terrivelmente Arailo.
- Mas és inteligente, certo? Quer dizer... – hesitou Alaysone.
- No aspecto em que consigo aprender, correlacionar dados e elaborar conceitos ou teorias neles baseados, sim. Mas mais nada. Não posso criar uma ideia nova, pintar um quadro, escrever uma obra. Não posso ter descendência. Só réplicas.

Arailo suspirou. Aquele andróide parecia mais humano do que alguns humanos que conhecia.
- Destruir uma obra de arte pela informação. Pelo Criador! Para obtermos o que necessitamos teremos que te matar. Onde já ouvi isto?
- Não penses nisso... sou apenas uma máquina embora não o pareça muito.

Arailo saiu da sonda, revoltada. Não era... justo. Uma criação magnífica que teria que ser desactivada, destruída, para que eles tivessem os dados em seu poder.
Juarez acompanhou-a com o olhar, virando-se depois para o andróide.
- Que aconteceu a Bloomfield? Ao seu corpo, quero dizer.
- Envolvi-o em película protectora e coloquei-o num dos contentores de vácuo que tinham servido para transportar comida. Foram essas as minhas instruções.
- Não o enterraste?
- Sam não me disse para o fazer. Talvez queiram levá-lo para prestar a vossa homenagem?
Ouviu-se a voz de Nogata através do comm de Alaysone.
- Negativo. O flutuador não consegue levar tanta carga. Lamento, mas um tem que ficar, e vocês sabem qual a prioridade dos Adminz.

Lentamente, os outros saíram também da sonda, acompanhados de Sam2. Alaysone voltou a selar cuidadosamente a escotilha, num silêncio respeitoso. Um dia viriam recuperar o corpo do cientista e sepultá-lo condignamente entre os seus.
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Re: Uma questão de semântica (author's cut)

Postby Ripley » 15 Mar 2010 16:18

...(5)...

Voltaram em silêncio para a colónia. Arailo não falava e os companheiros sentiam-se também pouco à vontade. Só Sam2 estava inexpressivo – mas isso era normal.

Ao chegarem ao Tekcenter, os Adminz pediram um debriefing completo. Não hesitaram um segundo em desactivar o andróide. Arailo pôs-se a pensar que fariam caso Sam2 fosse orgânico – quer dizer, humano. Achava-os uns cínicos pomposos que só viam os fins mesmo que os meios implicassem perdas.

Era essencial que o andróide fosse devidamente informado do procedimento para que não se desencadeassem os seus mecanismos de auto-protecção contra tentativas não autorizadas de obtenção dos dados que continha. As feições permaneceram impassíveis, mas estranhamente, quis fazer um último pedido antes da operação: falar com Arailo.

- Pediste que viesse... cá estou.
- Sam disse-me antes de morrer que talvez encontrasse pessoas reticentes em desmantelar-me, possivelmente gente ligada à cibernética que recusaria a ideia de terminar o meu funcionamento. Quereriam decerto aprender algo sobre mim.
- Sim. Cibernética era a minha área de escolha além da programação. Tenho respeito pelo trabalho que Bloomfield fez contigo e não seria capaz de o destruir.
- Eu sou um protótipo, uma peça única. Sam Bloomfield alterou circuitos e criou servomecanismos novos com que a vossa maquinaria não conseguiria criar um interface. Mas poderás ter acesso ao meu hardware e talvez fazer experiências. Quem sabe até produzir uma nova versão minha.

Arailo abanou a cabeça.
- Não. Não o farei. Acho que, por muito que necessitemos da informação, temos tempo para que no-la transmitas verbalmente. Não vamos a lado nenhum nos próximos anos. Aliás, acho que gostaria muito de conversar contigo.
- Também gostaria muito. Sam dizia ter muito prazer em conversar com uma versão de si próprio, dizia que dificilmente encontraria alguém com uma compatibilidade tão grande para além da inteligência. Que eu era o perfeito exemplo de “um sistema regulado pela própria interacção com o exterior”. Mas Sam morreu e eu sou apenas uma máquina. Já não sou necessário - mas a informação que contenho, sim.
- Lamento muito.
- Vocês necessitam do que eu trago. E eu não sofro dor ao ser desligado.

- Sam2... alguma vez o teu criador te falou de Wiener?
- Isso deve estar no meu banco de dados. É importante?

Os Adminz, impacientes, aproximavam-se já do andróide para o levar. Este levantou-se e ela estendeu a mão para se despedir, pegando na de Sam.
- Há muito tempo atrás, Sam, Wiener disse algo importante: que “do ponto de vista da transmissão da informação, a distinção entre máquinas e seres vivos, humanos ou não, é mera questão de semântica”. Ele teria gostado de te conhecer.

E com um sorriso triste, Arailo Yeoh-Sutton voltou-se e saiu do edifício.

...(Fim)...
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Re: Uma questão de semântica (author's cut)

Postby Samwise » 15 Mar 2010 19:27

A versão author's cut acrescenta pontes de ligação entre alguma partes do texto e complementa com pormenores adicionais a textura social da colónia. Não muda muito. Entre as duas, esta será a mais conseguida e arredondada, embora tenha mais arestas. ;) Digamos que os cortes que fizeste para fazer encaixar o trabalho no regulamento do concurso foram cirúrgicos: o essencial da obra permaneceu com o mesmo sabor.

Quando morreu a esposa, achou que já não havia mais nada para ele na Terra e ofereceu-se para a missão.


Esta parte em concreto vinha sem a vírgula no texto que me chegou às mãos. Lembro-me disto porque a primeira ideia com que fiquei foi a de que tinha sido ele a morrer - mas depois a frase não fazia sentido. Ainda estive a pensar por que razão não tinhas escolhido outra sequências para as palavras: "Quando a esposa morreu(,) Sam achou que ..." :mrgreen:
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Nemo vir est qui mundum non reddat meliorem?

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Re: Uma questão de semântica (author's cut)

Postby Ripley » 15 Mar 2010 19:52

Samwise wrote:
Quando morreu a esposa, achou que já não havia mais nada para ele na Terra e ofereceu-se para a missão.


Esta parte em concreto vinha sem a vírgula no texto que me chegou às mãos. Lembro-me disto porque a primeira ideia com que fiquei foi a de que tinha sido ele a morrer - mas depois a frase não fazia sentido. Ainda estive a pensar por que razão não tinhas escolhido outra sequências para as palavras: "Quando a esposa morreu(,) Sam achou que ..." :mrgreen:


True - a vírgula é proveniente da revisão pós cortes, em que consegui identificar exactamente o que não me "soava" bem.
E... isto vai ter versão Mega, um dia destes :rolleyes:
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Re: Uma questão de semântica (author's cut)

Postby pco69 » 23 Mar 2010 10:57

Lt Ripley :bow:

Espero que os Fanzines/Revistas que começam a surgir quem nem cogumelos, te peçam material ou te forneçam espaço para exprimires essa veia criativa. :tu:

Nota) sempre detestei os Adminz.... :whistle:
Fenómenos desencadeantes de enfarte do miocárdio

Esforços físicos, stress psíquico, digestão de alimentos, coito, tempo frio, vento de frente e esforços a princípio da manhã.

Ou seja, é extremamente perigoso fazer sexo ao ar livre com vento de frente, após ter tomado o pequeno almoço numa manhã de inverno...

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Re: Uma questão de semântica (author's cut)

Postby Lovecraft » 23 Mar 2010 21:51

pco69 wrote:Lt Ripley :bow:

Espero que os Fanzines/Revistas que começam a surgir quem nem cogumelos, te peçam material ou te forneçam espaço para exprimires essa veia criativa. :tu:

Nota) sempre detestei os Adminz.... :whistle:


A minha dúvida não se prende com as capacidades da Ripley, mas com a tão grande proliferação de revistas/Fanzines de que falas.
Fanzine não conheço nenhum, revistas 2 trimestrais e uma supostamente (pois ainda não saiu) mensal. Onde estão então as outras todas?


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